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Tártaro na Mitologia Grega: O Abismo Primordial do Submundo

 


Introdução: O Tártaro no Panteão Grego

Na rica tapeçaria da mitologia grega, o Tártaro representa muito mais que um simples local de punição - é uma entidade primordial, uma das primeiras forças a emergir do Caos inicial. Enquanto a cultura popular frequentemente simplifica o submundo grego como "Hades", a realidade mitológica é mais complexa e estratificada, com o Tártaro ocupando o nível mais profundo e tenebroso desse universo subterrâneo.

Neste artigo exploraremos detalhadamente as origens, características, habitantes e significados do Tártaro, oferecendo uma visão completa sobre este conceito fundamental da cosmogonia grega.

Etimologia e Significado do Nome "Tártaro"

O termo "Tártaro" (Τάρταρος em grego antigo) tem origens incertas na linguística, mas sua raiz possivelmente está conectada a verbos que significam "tremer" ou "causar tremor". Esta etimologia reflete adequadamente sua natureza como uma força telúrica e destabilizadora.

Curiosamente, a palavra "tártaro" sobreviveu em português não apenas no contexto mitológico, mas também na expressão "cálculo dentário" (tártaro dental), embora esta última derive do latim "tartarum" e tenha origem distinta.

Tártaro na Cosmogonia: As Origens Primordiais

Na teogonia de Hesíodo (século VIII a.C.), o Tártaro emerge como uma das entidades primordiais, aparecendo logo após:

  1. Caos (o vazio primordial)

  2. Gaia (a Terra)

  3. Tártaro (as profundezas)

  4. Eros (o amor/atração)

Esta sequência estabelece o Tártaro como um dos fundamentos do universo grego - não um lugar criado posteriormente, mas uma força cósmica existente desde o início. Hesíodo o descreve como um abismo tão profundo que uma bigorna de bronze levaria nove dias e nove noites caindo desde a Terra para alcançá-lo.

Características Físicas e Geográficas do Tártaro

Localização e Arquitetura Cósmica

Na cosmologia grega, o universo era dividido em três reinos principais:

  • Céu (Urano) - reino dos deuses olímpicos

  • Terra (Gaia) - mundo dos mortais

  • Submundo - domínio de Hades

Dentro do submundo, existiam várias regiões:

  1. Campos Elísios - para os abençoados

  2. Prados de Asfódelo - para as almas comuns

  3. Tártaro - para os condenados e titãs derrotados

Barreiras e Limites

O Tártaro era protegido por múltiplas barreiras:

  • Rio Flegetonte - de águas flamejantes

  • Muros triplos de bronze - construídos por Poseidon

  • Portões adamantinos - guardados pelos Hecatônquiros

  • Rio Estige - cujo juramento era inviolável até para os deuses

Esta fortificação refletia o medo que os próprios deuses tinham dos poderes contidos no Tártaro.

Habitantes e Prisioneiros Notáveis do Tártaro

Titãs Derrotados

Após a Titanomaquia (Guerra dos Titãs), Zeus aprisionou no Tártaro:

  • Cronos - o líder dos Titãs

  • Jápeto

  • Hiperião

  • Entre outros titãs que desafiaram o governo olímpico

Figuras Mitológicas Punições Eternas

Alguns dos castigos mais famosos ocorriam no Tártaro:

Sísifo

  • Castigo: Empurrar perpetuamente uma pedra montanha acima apenas para vê-la rolar novamente

  • Crime: Enganar a morte duas vezes e revelar segredos divinos

Tântalo

  • Castigo: Fome e sede eternas com comida e água recuando sempre que tentava alcançá-las

  • Crime: Servir seu filho Pelops como banquete para os deuses

Íxion

  • Castigo: Amarrado a uma roda de fogo em rotação eterna

  • Crime: Tentar seduzir Hera e matar seu sogro

As Danaides

  • Castigo: Encher eternamente um barril furado com água

  • Crime: Matar seus maridos na noite de núpcias (exceto Hipermnestra)

Monstros e Seres Primordiais

O Tártaro também abrigava criaturas temíveis:

  • Os Hecatônquiros (Coto, Briareu e Giges) - guardiões originais

  • Os Ciclopes - forjadores dos raios de Zeus

  • Tifão - monstro mais terrível da mitologia grega, nascido da união de Gaia com o Tártaro

O Tártaro como Entidade Geradora

Uma faceta menos conhecida do Tártaro é seu papel generativo. Em algumas tradições:

  • Tifão nasceu da união entre Gaia (Terra) e Tártaro

  • Equidna, a "mãe de todos os monstros", também teria origem tártara

  • Tânatos (a Morte) e Hipnos (o Sono) eram às vezes associados ao Tártaro

Esta dualidade - prisão e fonte geradora - revela a complexidade do conceito: o Tártaro não era apenas destrutivo, mas também um princípio criativo em sua própria esfera.

Evolução do Conceito ao Longo do Tempo

Período Arcaico (Hesíodo e Homero)

  • Tártaro como entidade primordial e local físico

  • Ênfase em seu papel na Titanomaquia

  • Descrições vívidas de sua profundidade e inacessibilidade

Período Clássico (Ésquilo, Sófocles, Eurípides)

  • Maior desenvolvimento como local de punição moral

  • Associação com crimes específicos e castigos correspondentes

  • Reflexão sobre justiça divina e ordem cósmica

Período Helenístico e Romano

  • Fusão com conceitos similares de outras mitologias

  • Influência na concepção cristã do Inferno

  • Popularização através de obras como a "Eneida" de Virgílio

Interpretações Filosóficas e Simbólicas

Platão e a Alegoria

Platão, em "Górgias" e "Fédon", reinterpreta o Tártaro:

  • Não apenas punição física, mas estado da alma corrupta

  • Alegoria para a condição interior de injustiça

  • Ênfase na purificação possível através da filosofia

Orfismo e Mistérios

Nas tradições órficas:

  • Tártaro como estágio no ciclo de reencarnação

  • Possibilidade de libertação através de rituais iniciáticos

  • Conceito mais complexo de salvação individual

Tártaro versus Hades: Distinções Cruciais

É comum a confusão entre:

  • Hades: O deus do submundo e seu reino em sentido amplo

  • Érebo: As trevas primordiais, região de entrada do submundo

  • Tártaro: A região mais profunda, específica para punições

Enquanto Hades governava todo o submundo, o Tártaro representava sua dimensão mais extrema - a prisão cósmica por excelência.

Influência Cultural e Legado

Literatura e Arte

  • Dante Alighieri - A "Divina Comédia" mostra clara influência na estrutura do Inferno

  • John Milton - "Paraíso Perdido" retoma elementos do Tártaro

  • Artistas renascentistas - Representações do Tártaro em pinturas como "A Queda dos Condenados" de Rubens

Psicologia e Linguagem

  • Sigmund Freud - Usou mitos tártaros para ilustrar aspectos do inconsciente

  • Carl Jung - Interpretou o Tártaro como arquétipo das profundezas psíquicas

  • Linguagem moderna - Expressões como "cair no tártaro" ou "profundezas tártaras"

Cultura Contemporânea

  • Mitologia comparada - Paralelos com conceitos como Naraka (hinduísmo/budismo) ou Hel (nórdico)

  • Entretenimento - Representações em filmes, jogos e literatura fantástica

  • Psicologia pop - "Complexo de Tântalo" ou "Tarefa de Sísifo" como metáforas

Conclusão: O Significado Duradouro do Tártaro

Tártaro na mitologia grega representa muito mais que um simples inferno de punição. É uma força cósmica primordial, um princípio de ordem (através do confinamento do caos) e um espelho das preocupações humanas sobre justiça, transgressão e consequência.

Sua evolução de abismo primordial para prisão moral reflete a própria evolução do pensamento grego - da preocupação com forças cósmicas impessoais para questões éticas e psicológicas individuais. Como tal, o Tártaro continua relevante não apenas como curiosidade mitológica, mas como símbolo potente das profundezas que existem tanto no cosmos quanto na psique humana.

Esta análise detalhada demonstra como o Tártaro permanece uma das concepções mais ricas e multifacetadas da mitologia ocidental, oferecendo insights valiosos sobre como os antigos gregos entendiam a estrutura do universo, a natureza da divindade e os fundamentos da ordem moral.

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