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Nüwa: A Deusa Mãe da Mitologia Chinesa, Criadora da Humanidade e Salvadora do Mundo



Introdução

Se Pangu foi o gigante que separou o Céu e a Terra, Nüwa (女娲) foi a divindade que deu vida e sentido a esse novo mundo. Ela é uma das figuras mais fascinantes e veneradas da mitologia chinesa, uma deusa criadora com corpo de serpente e torso humano que transcende o papel de simples progenitora .

Nüwa não apenas moldou os primeiros seres humanos com argila amarela para curar sua solidão, mas também salvou toda a sua criação de uma catástrofe cósmica quando os pilares do céu desabaram . Sua história é uma poderosa narrativa sobre criação, cuidado, resiliência e a eterna luta para restaurar o equilíbrio do universo.

Neste artigo, vamos explorar em detalhes os dois grandes atos de Nüwa: a criação da humanidade e a reparação do céu, além de suas origens, sua relação com Fuxi, seu papel como soberana e seu profundo significado cultural que ecoa até os dias de hoje.


Capítulo 1: Quem é Nüwa? A Deusa com Corpo de Serpente

1.1. Aparência e Natureza Divina

Diferente dos deuses antropomórficos de outras culturas, Nüwa possui uma forma híbrida e poderosa. Ela é tradicionalmente descrita como tendo cabeça e torso humanos, mas seu corpo inferior é o de uma serpente (ou dragão, em algumas versões) . Em algumas representações, ela também é retratada com chifres de boi, o que acentua sua natureza divina e ctônica .

Essa forma serpentina não é casual. Na cosmologia chinesa, a serpente e o dragão estão associados às águas, à fertilidade e aos mistérios da terra. Por isso, Nüwa é frequentemente associada a chuvas, lagoas, lagos e lugares onde as águas se acumulam, habitados por criaturas anfíbias e peixes . Seu nome e símbolo também derivam de palavras para "cabaça" ou "melão", ambos antigos símbolos de fertilidade e renovação .

1.2. As Múltiplas Faces de Nüwa

Dependendo da fonte histórica, Nüwa assume diferentes papéis:

  • Deusa Criadora (Mãe Cósmica): A figura mais popular, responsável por moldar os seres humanos .

  • Restauradora e Heroína: Aquela que repara o céu desabado e salva o mundo do caos .

  • Soberana (Imperatriz): Membro dos Três Augustos (Sanhuang), os lendários governantes da China primitiva, sucedendo seu irmão Fuxi no trono .

  • Deusa do Casamento e da Fertilidade: Por ter unido os primeiros casais e ensinado a procriação aos humanos .

  • Irmã e Esposa de Fuxi: Uma relação complexa que explica a origem da linhagem humana e dos rituais matrimoniais .

Capítulo 2: A Criação da Humanidade – Do Barro Amarelo à Desigualdade Social

A história mais conhecida de Nüwa é, sem dúvida, a criação da humanidade. Segundo os mitos, após a morte de Pangu e a separação definitiva do Céu e da Terra, Nüwa surgiu ou despertou em um mundo belo, mas vazio e silencioso .

2.1. A Solidão da Deusa e o Primeiro Ser Humano

Apesar de seu poder divino, Nüwa sentia-se profundamente solitária. Mesmo transformando-se 70 vezes ao dia, nada preenchia o vazio de caminhar sozinha por montanhas e vales . Um dia, enquanto passeava à beira de um lago, ela viu seu próprio reflexo na água. Teve então uma ideia: criar seres que se parecessem com ela e pudessem lhe fazer companhia.

Ajoelhando-se na margem, ela pegou um punhado de argila amarela (a cor da terra fértil do planalto de Loess, perto do Rio Amarelo), misturou com água e começou a esculpir cuidadosamente pequenas figuras . Ao colocá-las no chão, as estatuetas de barro ganharam vida imediatamente, saltando e dançando ao seu redor, chamando-a de "mãe" . Nüwa os chamou de "ren" (人), que significa "pessoa".

2.2. O Cansaço e o Método da Corda: A Origem das Classes Sociais

Feliz, mas percebendo que o mundo era imenso, Nüwa continuou a esculpir mais e mais humanos manualmente. No entanto, o trabalho era exaustivo e demorado. Para acelerar o processo, ela encontrou um atalho.

Nüwa mergulhou uma corda (ou um cipó) no barro líquido e a sacudiu no ar. Cada gota de barro que caía no chão transformava-se instantaneamente em um novo ser humano . Este método era muito mais rápido e logo o mundo ficou repleto de pessoas.

Mas essa diferença na criação teve uma consequência profunda: os seres cuidadosamente moldados à mão, com dedicação e perfeição, tornaram-se os ancestrais da nobreza, dos ricos e dos eruditos. Já aqueles que surgiram das gotas da corda, criados às pressas, formaram as classes comuns, os camponeses e os trabalhadores . Assim, o mito de Nüwa também oferece uma explicação antiga para a origem das hierarquias sociais.

2.3. A Criação do Casamento e a Procriação

Nüwa percebeu que seus filhos, apesar de numerosos, eram mortais. Para que a humanidade não desaparecesse com o tempo, ela precisava garantir sua continuidade. Foi então que ela instituiu o casamento, ensinando aos humanos como se unirem e procriarem. Por isso, ela também é venerada como a deusa do matrimônio e a padroeira das relações conjugais .

Capítulo 3: A Grande Catástrofe – Nüwa Repara o Céu

Se criar a humanidade foi seu primeiro grande ato, salvá-la da extinção foi o segundo e mais espetacular. O mito da reparação do céu (补天) é central para entender Nüwa como uma heroína cósmica.

3.1. A Queda dos Pilares do Céu

Um evento catastrófico abalou o mundo recém-criado. As causas variam conforme a versão do mito, mas a mais famosa envolve uma batalha titânica entre dois deuses:

  • Gonggong (共工), o deus das águas, e Zhuanxu, um deus do fogo (ou o deus do fogo em algumas versões), entraram em conflito pelo domínio do universo .

  • Derrotado, Gonggong, num acesso de fúria, investiu sua cabeça contra o Monte Buzhou (不周山), um dos pilares gigantes que sustentavam o firmamento .

  • O pilar se partiu, e o céu desabou. As consequências foram apocalípticas:

    • O céu inclinou-se para o noroeste, e a terra afundou para o sudeste (explicando porque os rios da China correm para leste) .

    • Grandes fissuras se abriram no firmamento, por onde jorravam águas celestiais sem parar.

    • Incêndios florestais incontroláveis devastaram a terra.

    • Bestas ferozes e pássaros gigantes atacavam e devoravam os humanos indefesos .

3.2. O Plano de Resgate: Pedras de Cinco Cores e as Patas da Tartaruga

Vendo seus filhos em perigo, Nüwa não hesitou. Com determinação, ela traçou um plano audacioso para restaurar a ordem no cosmos.

ProblemaAção de NüwaMateriais Utilizados
Fissuras no céuDerreteu pedras e remendou a abóbada celeste.Pedras de cinco cores (verde, vermelho, amarelo, branco e preto), simbolizando os cinco elementos .
Pilares quebradosCortou as pernas de uma tartaruga gigante (ou tartaruga marinha chamada Ao) para usá-las como novos suportes.Quatro patas de tartaruga, uma para cada canto do mundo .
InundaçõesQueimou juncos e amontoou suas cinzas para conter e absorver as águas transbordantes.Cinzas de juncos para formar barragens e diques .
Dragão NegroMatou o dragão negro que causava destruição e inundações na província de Ji.Sua própria força divina .
Animais ferozesAfugentou ou eliminou as bestas que ameaçavam a humanidade.Sua autoridade divina .

3.3. As Consequências: O Arco-Íris e a Inclinação da Terra

Após seu trabalho, a paz foi restaurada. No entanto, o mundo nunca mais foi o mesmo. A inclinação do céu e da terra permaneceu, criando a ordem natural que conhecemos hoje.

Um legado visual e poético desse evento é o arco-íris. Segundo a lenda, o arco-íris é a marca deixada no céu pelos remendos de pedras de cinco cores que Nüwa fundiu para fechar a grande fenda . Cada vez que vemos um arco-íris, estamos testemunhando a cicatriz curada do firmamento, um lembrete eterno do sacrifício e da habilidade da deusa.

Capítulo 4: Nüwa e Fuxi – O Casal Primordial

A relação de Nüwa com Fuxi (伏羲) , outra figura central da mitologia chinesa, é complexa e varia nas diferentes tradições.

4.1. Irmãos e Sobreviventes do Dilúvio

Em muitas narrativas, especialmente nas regiões do sul da China, Nüwa e Fuxi são irmãos e os únicos sobreviventes de um grande dilúvio . Refugiados no alto do Monte Kunlun, eles enfrentaram um dilema: o mundo precisava ser repovoado, mas o incesto era tabu.

Para resolver a dúvida, oraram ao céu por um sinal. Decidiram rolar duas pedras do topo da montanha; se elas se unissem na base, significaria que deveriam se casar. As pedras se uniram . Ainda assim, sentindo vergonha, Nüwa cobriu o rosto com um leque de grama ao se aproximar do irmão. Desta união, a humanidade teria se originado novamente, e daí vem a tradição das noivas chinesas usarem um leque ou véu nos casamentos .

4.2. O Casal Divino na Iconografia

Na arte da dinastia Han, Nüwa e Fuxi são frequentemente retratados juntos, com caudas de serpente entrelaçadas, simbolizando sua união cósmica e criativa . Eles seguram instrumentos simbólicos: Nüwa carrega um compasso, e Fuxi um esquadro. Essas ferramentas representam a ordem, a medida e a fundação da civilização chinesa .

Capítulo 5: Origens Históricas e Fontes do Mito

O mito de Nüwa não surgiu de uma só vez. Ele se desenvolveu ao longo de séculos, sendo registrado em importantes obras da literatura clássica chinesa.

FontePeríodoContribuição Principal
Chuci (楚辞) / "Perguntas ao Céu"c. 340–278 a.C.Primeira menção ao nome Nüwa. Ela molda figuras de terra amarela e repara o firmamento .
Liezi (列子)c. 475–221 a.C.Descreve Nüwa reparando o céu imperfeito com pedras de cinco cores e usando as patas de uma tartaruga .
Huainanzi (淮南子)c. 179–122 a.C.Relato mais detalhado da catástrofe (pilares quebrados, incêndios, inundações) e da reparação heroica de Nüwa .
Shuowen Jiezi (說文解字)c. 58–147 d.C.Primeiro dicionário chinês. Descreve Nüwa como esposa e irmã de Fuxi, com caudas de serpente entrelaçadas .
Duyi Zhi (獨異志)c. 846–874 d.C.Apresenta a história de Nüwa e seu irmão Fuxi no Monte Kunlun, casando-se mediante sinal divino .
Taiping Yulan (太平御覽)c. 960–1279 d.C.Compila a história da criação da humanidade com argila amarela e o método da corda, explicando a origem das classes sociais .

Capítulo 6: Significado Cultural e Filosófico de Nüwa

6.1. O Arquétipo da Criadora e Restauradora

Nüwa representa um tipo raro de protagonismo feminino na mitologia mundial. Ela não é uma deusa guerreira que conquista pela força bruta, nem uma figura passiva. Sua força reside na criação, no cuidado ativo e na reconstrução . Ela é a "arquiteta da ordem moral e física" , que não apenas dá vida, mas se recusa a abandonar sua criação quando ela está à beira do colapso.

6.2. Conexão com a Filosofia Chinesa (Yin-Yang e os Cinco Elementos)

O mito de Nüwa está profundamente alinhado com a cosmovisão chinesa:

  • Yin e Yang: Sua união com Fuxi (frequentemente visto como uma divindade Yang) representa o equilíbrio das forças complementares que regem o universo.

  • Cinco Elementos (Wu Xing): As pedras de cinco cores usadas para reparar o céu são uma clara referência aos cinco elementos fundamentais (madeira, fogo, terra, metal e água) que compõem e sustentam toda a realidade .

6.3. Relevância Contemporânea: O "Arte da ResilIência"

Nos tempos modernos, a figura de Nüwa transcende a mitologia para se tornar um poderoso símbolo de resiliência e esperança . Em um mundo de crises constantes – sejam elas ambientais, sociais ou pessoais –, Nüwa nos ensina que a destruição não é o fim. O caos é, na verdade, uma oportunidade para a intervenção criativa . Sua história nos convida a sermos os "reparadores" de nossos próprios "céus quebrados", usando os recursos que temos à mão (nossas "pedras de cinco cores") para reconstruir e restaurar o equilíbrio .

Conclusão

Nüwa é muito mais do que uma deusa mãe. Ela é a personificação da própria ideia de criação, cuidado e reconstrução. Sua história, que atravessa milênios, explica não apenas a origem da humanidade e das hierarquias sociais, mas também a forma dos rios, a inclinação do céu e a beleza do arco-íris .

De sua solidão inicial nasceu a vida, e de sua compaixão nasceu a salvação. Ao moldar a humanidade com as próprias mãos e depois lutar para protegê-la, Nüwa estabeleceu um vínculo eterno entre os deuses e os homens. Ela nos lembra que o poder feminino, a criatividade e a resiliência são forças capazes não apenas de criar mundos, mas de salvá-los quando tudo parece perdido . Conhecer Nüwa é compreender uma das camadas mais profundas e belas da alma e da filosofia chinesa.

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