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Zhuanxu: O Guia Completo sobre o Deus do Norte e um dos Cinco Imperadores da Mitologia Chinesa

 


Introdução

Na vasta e complexa tapeçaria da mitologia chinesa, poucas figuras são tão fundamentais e intrigantes quanto Zhuanxu (颛顼). Conhecido também como Gaoyang (高阳) , ele não é apenas uma figura divina, mas também um ancestral lendário e um governante sábio que moldou os alicerces da civilização chinesa. Este guia oferece uma visão aprofundada sobre Zhuanxu, explorando suas origens, seus feitos lendários, seu papel como divindade e seu duradouro legado cultural. Se você se interessa por mitologia, história antiga ou a formação da identidade cultural chinesa, entender Zhuanxu é essencial.


Capítulo 1: Quem foi Zhuanxu? Origens e Contexto Histórico

1.1. Definição e Nomenclatura

Zhuanxu (pronuncia-se Zhu-An-Shu) é uma figura central na mitologia e na historiografia chinesa antiga. Ele é mais conhecido como um dos "Cinco Imperadores" (五帝, Wǔ Dì) , um grupo de governantes sábios e virtuosos que lideraram a China numa era dourada antes do estabelecimento das primeiras dinastias . Seu nome pessoal era Gaoyang, uma referência ao local onde recebeu seu feudo .

  • Nome em Chinês: 颛顼 (simplificado) / 顓頊 (tradicional)

  • Pinyin: Zhuānxū

  • Outro Nome: Gaoyang (高阳 / 高陽)

  • Título: Imperador Zhuanxu, Deus do Norte

1.2. Genealogia Divina: A Neto do Imperador Amarelo

A linhagem de Zhuanxu é um dos aspectos mais importantes de sua identidade, conectando-o diretamente ao patriarca da civilização chinesa. De acordo com o grande historiador Sima Qian, em seu Registros do Historiador (Shiji), Zhuanxu era o neto do lendário Imperador Amarelo (Huangdi) e de sua esposa Leizu .

Sua árvore genealógica, com algumas variações entre as fontes antigas, é geralmente descrita da seguinte forma:

  • Avô: Imperador Amarelo (黃帝)

  • Avó: Leizu (嫘祖)

  • Pai: Changyi (昌意), o segundo filho do Imperador Amarelo .

  • Mãe: Changpu (昌僕) do clã Shushan (de acordo com o Shiji) ou Niuqu (女樞) (de acordo com os Anais de Bambu. Uma versão do Clássico das Montanhas e Mares (Shanhaijing) menciona Hanliu (韓流) como seu pai, adicionando uma camada de complexidade à sua linhagem mítica .

1.3. Fontes Históricas Primárias

O conhecimento sobre Zhuanxu provém de várias fontes clássicas da literatura chinesa, cada uma oferecendo um fragmento de sua história:

  • Registros do Historiador (Shiji) de Sima Qian: A principal fonte para sua biografia "histórica" como governante .

  • Anais de Bambu (Zhushu Jinian): Oferece detalhes sobre sua juventude, reinado e realizações, como a composição musical .

  • Clássico das Montanhas e Mares (Shanhaijing): Uma fonte rica em detalhes mitológicos, descrevendo sua linhagem alternativa, seus descendentes e seu papel como divindade .

  • Huainanzi: Importante para estabelecê-lo como o deus do Norte e associá-lo ao elemento água .


Capítulo 2: Zhuanxu na História: O Reinado de um Imperador Lendário

A narrativa em torno de Zhuanxu transcende a mitologia pura, situando-o como um soberano terreno que governou com virtude e realizou grandes feitos.

2.1. Ascensão ao Poder

A juventude de Zhuanxu já anunciava seu destino grandioso. Os Anais de Bambu narram que, aos dez anos, ele começou a auxiliar seu tio, o Imperador Shaohao . Sua sabedoria e capacidade eram tão evidentes que, aos vinte anos, ele próprio ascendeu ao trono, tornando-se o novo líder da tribo, com o nome de reinado Zhuanxu, sucedendo a seu tio .

Sua capital foi estabelecida em Diqiu (帝丘), localizada na atual Puyang, Província de Henan . Acredita-se que seu reinado tenha durado notáveis setenta e oito anos .

2.2. Principais Contribuições e Feitos como Governante

O Imperador Zhuanxu é lembrado não apenas por sua linhagem, mas por suas reformas e inovações que consolidaram a ordem social e política.

2.2.1. A Grande Reforma Religiosa
Um de seus maiores desafios foi lidar com a desordem causada pelas práticas xamânicas descontroladas do povo Jiuli (九黎). Acreditava-se que, naquela época, a comunicação entre o céu e a terra era excessivamente comum, com todas as famílias praticando rituais e feitiçaria, o que negligenciava os assuntos terrenos e a agricultura .
Para restaurar a ordem, Zhuanxu implementou uma profunda reforma religiosa. Ele ordenou que seu neto, Chong (重) , assumisse o posto de "Nanzheng" (南正, Chefe do Sul) para cuidar dos assuntos celestiais e das cerimônias com os deuses. Outro neto, Li (黎) , foi nomeado "Beizheng" (北正, Chefe do Norte) para administrar os assuntos terrenos e o povo . Esse ato lendário é conhecido como a "separação do Céu e da Terra" (绝地天通) , centralizando a autoridade religiosa e limitando o contato com o divino apenas ao governante e seus oficiais designados .

2.2.2. Unificação do Calendário e da Astrologia
Zhuanxu também é creditado por trazer ordem ao cosmos ao padronizar o calendário e a astrologia. De acordo com os Anais de Bambu, no décimo terceiro ano de seu reinado, ele "inventou os cálculos calendáricos e as delineações dos corpos celestes" . Séculos mais tarde, o Primeiro Imperador de Qin, que reivindicava descendência de Zhuanxu, nomeou o novo sistema de calendário imperial como "Zhuanxu Li" (颛顼曆) em sua homenagem .

2.2.3. Outras Contribuições Sociais e Culturais
Além da religião e da ciência, seu governo promoveu a estabilidade social ao:

  • Defender o sistema patriarcal em detrimento de antigas tradições matriarcais.

  • Proibir o casamento entre parentes próximos, fortalecendo os laços familiares e sociais .

  • Compor uma das mais antigas peças musicais de que se tem registro, chamada "A Resposta às Nuvens" (承雲) .

2.3. O Conflito Épico com Gonggong

Um dos mitos mais famosos associados a Zhuanxu é sua luta pelo poder contra Gonggong (共工) , um espírito das águas e descendente do Imperador Yan. A história, imortalizada em textos como o Huainanzi, conta que Gonggong, enfurecido por ter perdido a disputa pelo trono celestial para Zhuanxu, bateu sua cabeça contra o Monte Buzhou (不周山), um dos pilares que sustentavam o céu .

  • Consequências Cósmicas: O pilar quebrou, fazendo com que o céu se inclinasse para o noroeste e a terra cedesse no sudeste. Isso explica, na mitologia chinesa, por que o sol, a lua e as estrelas se movem em direção ao noroeste e por que todos os rios da China fluem para o sudeste . A vitória de Zhuanxu solidificou sua posição como o soberano supremo.


Capítulo 3: Zhuanxu na Mitologia: O Deus do Norte e Pai de Espíritos

Para além do imperador terreno, Zhuanxu ocupa um lugar de destaque como uma poderosa divindade no panteão chinês.

3.1. A Divindade do Norte e o Elemento Água

No sistema de correspondências cosmológicas da China antiga, Zhuanxu é o Deus do Norte (北方天帝) . Ele preside a direção cardinal norte, que é associada ao elemento água, à estação do inverno e à cor preta .

  • Símbolos e Poderes: Seu poder sobre a água e o inverno o conectava a ciclos de destruição e renovação. Ele governava não apenas os mares e rios, mas também os monstros e espíritos que neles habitavam.

  • Subordinado: Seu assistente e espírito adjunto era Xuanming (玄冥) , conhecido como o deus das águas profundas e do inverno .

3.2. A "Separação do Céu e da Terra": Uma Visão Mitológica

Como visto em seu papel histórico, o mito da separação do céu e da terra é central para a identidade de Zhuanxu. Diferentes versões do mito aparecem em textos como Shang Shu (Clássico da História) e Shanhaijing . Esta narrativa é frequentemente interpretada por historiadores e mitologistas como uma alegoria para o surgimento de uma sociedade estratificada, onde o poder e o conhecimento (especialmente o religioso) se tornam concentrados nas mãos de uma elite governante, marcando a transição das sociedades neolíticas para formas mais complexas de organização política .

3.3. Descendência: Entre Virtuosos e Monstros

A família de Zhuanxu era vasta e diversa, dando origem a linhagens de heróis e a criaturas temíveis.

  • Descendentes Virtuosos:

    • Os Oito Talentos (八恺): Zhuanxu teve oito filhos talentosos e virtuosos, conhecidos como os "Oito Bons" ou "Oito Harmoniosos" (八恺: Cangshu, Tuikai, Taoyan, Dalin, Pangjiang, Tingjian, Zhongrong, Shuda), que mais tarde serviram ao Imperador Shun .

    • Ancestral de Dinastias: Ele foi reivindicado como antepassado por dinastias importantes, como a dinastia Qin (嬴) , a dinastia Chu (芈) e pelo clã Cao do reino de Wei . O famoso poeta Qu Yuan, do estado de Chu, também afirmava ser seu descendente .

    • Pengzu (彭祖): O lendário imortal Pengzu, que viveu mais de 800 anos, é frequentemente citado como seu bisneto .

  • Descendentes Problemáticos:

    • Taowu (梼杌): Seu filho incompetente e teimoso, descrito como um "toco de árvore" e um "cabeça-dura", que se tornou um dos "Quatro Monstros" (四凶) do mundo antigo, um ser bestial que espalhava o caos .

    • Crianças Fantasmagóricas: Diz-se que três de seus filhos morreram jovens e se transformaram em fantasmas que espalham doenças e assustam crianças .


Capítulo 4: Milagres, Lendas e Símbolos de Poder

Além das grandes reformas, o imaginário popular e textos clássicos como o Shiyiji (Registros de Registros Perdidos) atribuem a Zhuanxu objetos mágicos e encontros com reinos fantásticos .

4.1. Artefatos Mágicos e Prodígios Musicais

O reinado de Zhuanxu foi marcado pela presença de objetos de poder incomparável:

  • Sinos Flutuantes e Carrilhões de Pedra: Ele possuía sinos de "metal flutuante" e carrilhões de "pedra brilhante". Quando tocados com penas, seu som podia ser ouvido a cem milhas de distância. Havia também um tipo especial de pedra tão leve que flutuava na água, e com ela eram feitos carrilhões de som cristalino .

  • A Espada Sombra Perseguidora (曳影之剑): Sua espada mágica tinha o poder de levitar voar. Quando uma guerra ameaçava em qualquer direção, a espada voava automaticamente para apontar para a fonte do conflito, garantindo a vitória. Quando guardada, emitia roncos de dragões e tigres de sua bainha .

4.2. O Encontro com o Reino de Bodai

Zhuanxu recebeu a visita de emissários do reino mítico de Bodai (勃鞮之国) , localizado ao norte do Mar Mingshui. Os habitantes de Bodai usavam roupas feitas de penas, podiam voar (apesar de não terem asas), não projetavam sombras e viviam até os mil anos. Eles viajaram para a corte de Zhuanxu levados pelo vento. Como o clima da planície central era quente demais para suas vestes de penas, o imperador presenteou-os com roupas ornamentadas com peles de leopardo. Em retribuição, ofereceram-lhe anéis de jade negro e mil magníficos cavalos negros, que Zhuanxu usou para puxar suas carruagens de rodas de ferro em viagens para consolar as regiões mais distantes .

4.3. Túmulo e Culto Moderno

Acredita-se que Zhuanxu esteja enterrado no Monte Wuyu (務隅山), com a companhia de suas nove concubinas . Atualmente, vários locais nas províncias de Henan, Hebei e Shandong reivindicam ser sua terra natal ou o local de seu túmulo, desenvolvendo cultos locais em sua homenagem .

  • Festival em Neihuang: No Condado de Neihuang (Henan), onde se acredita que ele esteja enterrado, um grande festival é realizado anualmente no dia 18 do terceiro mês lunar para celebrar seu aniversário. Em 2003, um serviço de adoração pública organizado pelo governo local atraiu cerca de 300.000 peregrinos .


Capítulo 5: Zhuanxu na Cultura e no Pensamento Chinês

O legado de Zhuanxu vai além dos mitos, influenciando a política, a filosofia e a identidade cultural.

5.1. Influência na Formação dos Estados e Linhagens

Durante os períodos das Primaveras e Outonos e dos Reinos Combatentes, a afirmação de descendência de figuras lendárias como Zhuanxu era uma poderosa ferramenta de legitimação política. Ao traçar sua linhagem até o neto do Imperador Amarelo, os governantes dos estados de Qin, Chu e outros fortaleciam sua autoridade e reivindicavam um lugar de destaque na herança cultural chinesa .

5.2. Zhuanxu e o Taoísmo

A figura de Zhuanxu foi integrada ao panteão taoísta. Como o deus do Norte, ele é uma figura importante nas cosmologias taoístas, frequentemente associado à estrela polar e ao conceito de Taiyi (太一), o Deus Supremo da Estrela Polar . Sua reforma religiosa e separação dos reinos celestial e terreno também ressoam com temas taoístas de ordem cósmica e social.

5.3. Conexão com a Arqueologia: A Cultura de Longshan

Mitologistas e arqueólogos frequentemente correlacionam o mito da "separação do céu e da terra" com as mudanças sociais observadas no registro arqueológico durante a transição da Cultura Yangshao para a Cultura Longshan (c. 3000-2000 a.C.) .

  • Evidências Arqueológicas: Na Cultura Yangshao, artefatos e enterros sugerem uma sociedade mais igualitária, onde práticas xamânicas podiam ser difundidas. Na Cultura Longshan, no entanto, surgem evidências claras de estratificação social, com elites enterradas em tumbas elaboradas com bens de prestígio, enquanto a maioria das pessoas tinha sepultamentos simples. A "monopolização" do contato com o divino por uma elite, simbolizada por Zhuanxu, pode ser um reflexo mitológico dessa transformação social real .


Conclusão: O Legado Duradouro de um Deus-Imperador

Zhuanxu é uma figura de múltiplas camadas: o neto do Imperador Amarelo que unificou tribos, o reformador religioso que trouxe ordem ao mundo mortal e ao cosmos, o deus do Norte que controlava as águas do inverno e o progenitor de reis, poetas e monstros. Sua história, um entrelaçamento de lendas, mitos e possíveis memórias históricas, oferece uma janela fascinante para a compreensão de como os antigos chineses viam a origem de sua civilização, a estrutura do poder e o lugar da humanidade no universo.

Embora menos conhecido do público ocidental do que o Imperador Amarelo, Zhuanxu é um pilar fundamental da mitologia chinesa. Seu legado perdura nos calendários antigos, nas lendas de suas espadas mágicas e nos rituais de vilarejos que ainda hoje celebram o aniversário do deus do Norte. Explorar sua história é, em última análise, explorar as próprias raízes da identidade cultural chinesa.


Fontes e Referências

Para a elaboração deste guia, foram consultadas as seguintes fontes:

  1. Wikipedia: Zhuanxu 

  2. Mitologia Fandom: Zhuanxu 

  3. Chinese Text Project: 颛顼 Dictionary Entry 

  4. Chinese Weird Tales: Emperor Zhuanxu/颛顼 

  5. 漢典 (Zdic): 颛顼 Definition 

  6. Cambridge University Press: Chinese Myths and Legends 

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