Introdução
Nas profundezas da Amazônia, onde a floresta encontra o céu e os rios serpenteiam como veias da terra, habita uma das figuras mais extraordinárias da mitologia indígena brasileira: Yebá Bëló. Conhecida como a "Avó do Mundo" ou a "Mulher que Surgiu do Nada" , esta divindade ocupa um lugar central na cosmogonia do povo Dessana (também conhecidos como Desana ou Desano), que habita a região do noroeste do Amazonas, na fronteira com a Colômbia .
Diferentemente de muitas tradições cosmogônicas centradas em figuras masculinas ou em lutas entre forças primordiais, Yebá Bëló representa um dos mais belos exemplos de autogênese feminina na história das religiões. Ela não foi criada por ninguém; simplesmente apareceu do nada, em meio às trevas primordiais, e a partir de seu pensamento, de sua fumaça e de sua saliva, teceu todo o universo conhecido .
Sua história é um tesouro da cultura indígena brasileira, um mito de criação que rivaliza em beleza e complexidade com as grandes narrativas cosmogônicas da humanidade — da grega Gaia à egípcia Nut, da chinesa Nüwa à iorubá Nanã. Neste artigo, vamos explorar a fundo quem é Yebá Bëló, o significado de seu nome, o intricado processo de criação do universo, a simbologia de seus elementos sagrados e seu legado como arquétipo do poder feminino criador.
Quem São os Dessana? O Povo de Yebá Bëló
Antes de mergulhar na história da deusa, é essencial conhecer o povo que guarda sua memória. Os Dessana (autodenominados Umukomasã ou "Povo do Universo") são um grupo indígena de língua da família Tukano Oriental, que habita a região do Alto Rio Negro, no noroeste do estado do Amazonas, em terras que se estendem até a Colômbia .
Os Dessana possuem uma das cosmologias mais ricas e complexas da Amazônia, e o mito de Yebá Bëló é a pedra fundamental de sua visão de mundo. Para eles, a figura feminina é tão sagrada que se as mulheres não existissem, o mundo também não existiria . Essa centralidade do feminino na criação é um traço distintivo da cultura Dessana e torna Yebá Bëló uma divindade única no panorama das religiões indígenas.
O Significado do Nome: "Avó do Mundo" e "Mulher que Surgiu do Nada"
Yebá Bëló é conhecida por diversos títulos que revelam aspectos de sua natureza divina:
Esses títulos apontam para uma divindade que não apenas criou o mundo, mas que é ela própria a origem de tudo, inclusive de si mesma. Yebá Bëló é a "avó" no sentido de ancestralidade primordial, a matriz geradora de todas as coisas.
O Mito da Criação: Yebá Bëló e o Surgimento do Universo
O mito de Yebá Bëló é uma das narrativas cosmogônicas mais belas e detalhadas da mitologia indígena brasileira. A seguir, apresentamos sua história em sua estrutura completa, baseada nos relatos de Umusī Pãrõkumu (Firmiano Arantes Lana) e Tõrãmü Kēhíri (Luiz Gomes Lana), estudiosos e porta-vozes da tradição Dessana .
O Vazio Primordial e a Autogênese
Antes de tudo, existia apenas o Caos, a escuridão infinita, o nada absoluto. Não havia céu, nem terra, nem estrelas, nem tempo .
Foi nesse vazio primordial que Yebá Bëló fez a si mesma. Ela surgiu do nada, utilizando seis itens misteriosos e invisíveis para construir sua própria existência :
Um banco de quartzo branco (símbolo de autoridade e poder)
Uma forquilha para segurar o cigarro
Uma cuia de ipadu (folha de coca, planta sagrada)
O suporte da cuia de ipadu
Uma cuia de farinha de tapioca
O suporte da cuia de farinha
Enquanto ia surgindo, Yebá Bëló cobria-se com enfeites. Ela então criou para si uma maloca (morada) inteiramente feita de quartzo branco, chamada Uhtãboho taribu. Nesse local sagrado, apenas ali existia luz em meio à escuridão universal .
A Meditação Criadora: O Pensamento que se Torna Matéria
Dentro de sua morada de quartzo, Yebá Bëló começou a mascar ipadu (coca sagrada) e a fumar tabaco, enquanto pensava em como o mundo deveria ser . Este é um ponto central do mito: a criação não se dá por um ato de vontade externo, mas por um processo de meditação profunda, utilizando substâncias sagradas para transformar o pensamento em realidade .
Seu pensamento acabou assumindo a forma de uma esfera, sobre a qual surgiu uma torre. Essa esfera, que era o mundo em potencial, absorveu toda a escuridão para dentro de si. Yebá Bëló a chamou de Umukowi'i, a "Maloca do Universo" .
A Criação dos Cinco Trovões (Umukoñehküsuma)
Após criar a estrutura primordial do universo, Yebá Bëló voltou a mascar ipadu. Desta vez, ela retirou a massa de ipadu da boca e com ela formou cinco homens .
Esses seres eram os Umukoñehküsuma ("Avôs do Mundo") ou Uhtãbohowerimahsã ("Homens do Quartzo Branco") . Eram trovões imortais, cada um recebendo de Yebá Bëló uma maloca no mundo recém-criado, posicionada em um dos pontos cardeais :
| Trovão | Localização |
|---|---|
| Primeiro Trovão | Sul |
| Segundo Trovão | Leste |
| Terceiro Trovão | Alto (acima da torre do mundo) |
| Quarto Trovão | Oeste |
| Quinto Trovão | Norte |
Yebá Bëló incumbiu os cinco trovões de criarem todo o resto do mundo — a luz, os rios, a humanidade. No entanto, eles falharam em sua missão: em vez de cumprirem seu dever, ficaram ociosos dentro de suas malocas e, com o tempo, esqueceram completamente o que deveriam fazer .
A Criação de Yebá Göãmã: O Demiurgo
Diante do fracasso dos trovões, Yebá Bëló retornou à sua maloca de quartzo. Mais uma vez, consumiu ipadu e fumou seu cigarro, enquanto pensava em criar um ser que pudesse seguir suas ordens e completar a criação .
Enquanto pensava em como ele deveria ser, a fumaça do cigarro começou a tomar a forma de um ser misterioso, sem corpo, invisível e intocável. Yebá Bëló o capturou com seu pari de defesa (wereimikaru) e o saudou: "Umukosurãpanami" ("Bisneto do Mundo"). Ele respondeu: "Umukosurãñehkõ" ("Tataravó do Mundo") .
Este novo ser recebeu o nome de Yebá Göãmã (também grafado como Yebá Ngoamãn), que significa "Demiurgo da Terra" ou "Criador do Mundo" . Yebá Bëló explicou a ele o fracasso dos trovões e atribuiu-lhe a missão de terminar a criação, prometendo guiá-lo no processo.
Yebá Göãmã aceitou a missão. Ergueu seu bastão cerimonial chamado yewãígõã ("osso de pajé") e o fez subir da maloca de quartzo até o cume da torre do mundo .
A Criação do Sol (Abe)
Seguindo as instruções de Yebá Bëló, Yebá Göãmã enfeitou a ponta de seu bastão com penas amarradas e enfeites masculinos e femininos. O adorno começou a brilhar em diversas cores — branco, azul, verde, amarelo — e, em seguida, transformou-se, assumindo um rosto humano .
Era Abe, o Sol, que acabava de ser criado. A partir de então, ele passou a levar luz a todos os cantos onde antes só existia escuridão. Por fim, Yebá Bëló cobriu o Sol com um tapume de penugem de arara (mahãweayuhsu) .
A Inveja dos Trovões e a Intervenção do Terceiro Trovão
Ao verem o trabalho realizado por Yebá Göãmã, os trovões ficaram tomados pela inveja e decidiram destruir sua obra. Somente um deles, o terceiro trovão (chamado Umukoñehkü), não sentiu inveja. Ele apaziguou os ânimos dos irmãos, oferecendo-lhes ipadu e cigarro, restaurando a harmonia .
A Criação da Terra e da Humanidade
Posteriormente, Yebá Bëló orientou Yebá Göãmã a ir até a maloca do terceiro trovão para buscar os enfeites de penas necessários para criar a humanidade .
Enquanto Yebá Göãmã subia em direção à maloca do trovão, Yebá Bëló realizou um ato sagrado e poderoso: ela tirou do seio esquerdo sementes de tabaco e as espalhou sobre os paris (esteiras rituais). Depois, tirou leite do mesmo seio e o derramou por cima. As sementes de tabaco formaram a terra, e o leite serviu para adubá-la e fertilizá-la .
Yebá Göãmã encontrou-se com o terceiro trovão e com Umukomahsü Boreka, o chefe dos Dessana. O trovão entregou a eles os enfeites sagrados e ensinou o rito para transformá-los em seres humanos .
A instrução foi:
Colher uma folha nova de ipadu e engoli-la.
Quando sentissem dor na barriga, acender o turi (madeira produtora de fogo), molhá-lo na água e beber o conteúdo.
Vomitar em um único buraco no rio.
Eles assim fizeram, e do vômito surgiram duas mulheres muito bonitas. O terceiro trovão então decidiu acompanhá-los para ajudá-los a formar a futura humanidade .
A Simbologia de Yebá Bëló: Elementos Sagrados
A riqueza simbólica do mito de Yebá Bëló é impressionante. Cada elemento carrega significados profundos que conectam a natureza humana ao cosmos .
Yebá Bëló no Contexto das Mães Primordiais
A figura da "Mãe Primordial" ou "Avó Criadora" aparece em diversas culturas ao redor do mundo. Yebá Bëló encontra paralelos fascinantes com outras divindades femininas, ao mesmo tempo em que mantém sua singularidade :
O que distingue Yebá Bëló é seu isolamento criativo. Ela não age sobre uma matéria preexistente; ela gera a matéria a partir de seu próprio ser, através da meditação e do uso ritual de plantas sagradas. O universo, para os Dessana, é antes de tudo "um ato de consciência" .
Yebá Bëló na Cultura Contemporânea
Embora seja uma divindade ancestral, Yebá Bëló tem ganhado crescente reconhecimento fora dos círculos acadêmicos e indígenas, especialmente em contextos que valorizam o sagrado feminino e a espiritualidade ecológica.
Arquétipo do Poder Feminino
Yebá Bëló tem sido resgatada como um símbolo do protagonismo feminino. A deusa que "fez a si mesma" e criou o universo a partir de seu próprio corpo inspira mulheres a se reconhecerem como inteiras, capazes de gerar suas próprias realidades .
Segundo a escritora Morgana Leal, conectar-se com Yebá Bëló significa:
"Tomar posse de nossa vida como protagonistas da nossa história, comprometidas com a identificação dos nossos talentos, prontas para a realização dos nossos sonhos" .
Na Literatura e na Internet
O mito de Yebá Bëló tem sido difundido por blogs, sites de mitologia e redes sociais, como Facebook e Threads . A divulgação dessas narrativas contribui para a valorização da cultura indígena e para o reconhecimento da riqueza espiritual dos povos originários do Brasil.
Na Música
Há registros de menções a Yebá Bëló em contextos musicais, como na descrição de uma música intitulada "Yebá Bëló - A Arquiteta do Universo", demonstrando como a deusa inspira a criação artística contemporânea .
Tabela Resumo: O Mito de Criação de Yebá Bëló
| Fase da Criação | Evento Principal | Seres/Elementos Criados |
|---|---|---|
| Autogênese | Yebá Bëló surge do nada, usando 6 itens invisíveis, e constrói sua maloca de quartzo . | Yebá Bëló |
| Meditação Criadora | Mascando ipadu e fumando, Yebá Bëló pensa o mundo; seu pensamento forma a "Maloca do Universo" . | Umukowi'i (estrutura do cosmos) |
| Criação dos Trovões | Yebá Bëló forma cinco trovões com a massa de ipadu . | Cinco trovões imortais (Umukoñehküsuma) |
| Fracasso dos Trovões | Os trovões falham em criar o resto do mundo . | - |
| Criação do Demiurgo | Da fumaça do cigarro de Yebá Bëló surge Yebá Göãmã . | Yebá Göãmã (o Demiurgo) |
| Criação do Sol | Yebá Göãmã, guiado por Yebá Bëló, cria o Sol (Abe) . | Abe (o Sol) |
| Inveja dos Trovões | Quatro trovões tentam destruir a criação; o terceiro trovão os apazigua . | - |
| Criação da Terra | Yebá Bëló cria a terra com sementes de tabaco e leite de seu seio esquerdo . | A terra |
| Criação da Humanidade | Yebá Göãmã e o chefe dos Dessana recebem do terceiro trovão os enfeites e o rito para criar humanos; duas mulheres surgem do vômito sagrado . | As primeiras mulheres |
Conclusão
Yebá Bëló é, sem dúvida, uma das joias mais preciosas da mitologia indígena brasileira. Como "Avó do Mundo" e "Mulher que Surgiu do Nada", ela representa um dos mais belos exemplos de autogênese feminina na história das religiões — uma divindade que não apenas cria o universo, mas que se cria a si mesma, a partir de seu próprio poder e consciência.
Sua história, preservada com zelo pelo povo Dessana, nos ensina que a criação é um ato de paciência, reflexão e conexão com o sagrado. Ela nos lembra que o universo é tecido como uma grande rede, onde todos os fios estão interligados, e que a matéria do mundo emerge do corpo e do pensamento de uma Grande Mãe.
Em um tempo de crescente valorização do protagonismo feminino e da necessidade de reconexão com a natureza, Yebá Bëló emerge como um arquétipo poderoso: a mulher que se faz inteira, que gera a partir de si mesma e que nos convida a reconhecer que, assim como ela, somos capazes de cocriar a realidade que desejamos.
Conhecer Yebá Bëló é mergulhar na cosmovisão de um povo que enxerga no feminino a origem de toda a existência. É reconhecer a imensa riqueza cultural que os povos indígenas do Brasil guardam e nos oferecem — um tesouro de sabedoria que, como a morada de quartzo da Avó do Mundo, brilha com luz própria na escuridão.

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