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Ame-no-Minakanushi: O Deus Primordial do Xintoísmo e Centro do Universo

 


Introdução

Ame-no-Minakanushi (天之御中主神), cujo nome significa "Senhor do Augusto Centro do Céu" , é uma das divindades (kami) mais enigmáticas e fundamentais da mitologia japonesa. Ele ocupa a posição de destaque como o primeiro deus a surgir no Takamagahara (Plano Alto Celestial) no momento da criação do universo, de acordo com as crônicas antigas . Este guia detalhado explora a fundo a história, o significado, as interpretações acadêmicas e as formas de culto relacionadas a esta importante figura do panteão xintoísta.

Origem e Nomenclatura

O Nome e Seu Significado

O nome Ame-no-Minakanushi-no-Kami é profundamente simbólico:

  • Ame (天): Significa "céu" ou "realm celestial" .

  • No (の): Partícula possessiva, equivalente a "de" ou "do".

  • Naka (中): Significa "centro" ou "meio" .

  • Nushi (主): Significa "mestre", "senhor" ou "aquele que exerce a autoridade principal" .

A interpretação mais aceita para o nome composto é "A Deidade Senhora do Augusto Centro do Céu" . Esta nomenclatura o estabelece imediatamente como a divindade central e soberana do cosmos, a partir da qual toda a criação se desenrola. Em textos como o Nihon Shoki, ele é por vezes referido como Ame-no-Minakanushi-no-Mikoto (天御中主尊), utilizando o título honorífico "Mikoto" .

Os Três Deuses da Criação (Zōka Sanshin)

Ame-no-Minakanushi é a figura principal e a primeira de uma tríade conhecida como Zōka Sanshin (造化三神) , ou "Três Deuses da Criação" . De acordo com o Kojiki (Registro de Assuntos Antigos), imediatamente após a separação do céu e da terra do caos primordial, três deuses surgiram no Takamagahara :

  1. Ame-no-Minakanushi-no-Kami (天之御中主神) : O primeiro a aparecer, representando o princípio central e a soberania universal.

  2. Takamimusubi-no-Kami (高御産巣日神) : O segundo a surgir, associado ao poder criativo e ao desenvolvimento do cosmos, frequentemente ligado à linhagem imperial .

  3. Kamimusubi-no-Kami (神産巣日神) : O terceiro a surgir, também uma força geradora ligada à criação da terra e de todos os seres .

Estes três deuses são classificados como Hitorigami (独神) , ou "deuses solitários", o que significa que surgiram de forma espontânea, sem qualquer contraparte ou parceiro, e logo após a sua aparição, "esconderam as suas formas" (ou "tornaram as suas presenças invisíveis") . Eles fazem parte de um grupo maior de cinco divindades primordiais conhecidas como Kotoamatsukami (別天津神) , ou "Deuses Celestiais Distintos" .

Relatos Mitológicos nos Textos Clássicos

A presença de Ame-no-Minakanushi varia ligeiramente entre as duas principais fontes da mitologia japonesa: o Kojiki (712 d.C.) e o Nihon Shoki (720 d.C.) .

No Kojiki

No Kojiki, a narrativa é clara e direta. Ame-no-Minakanushi é indiscutivelmente o primeiro ser a existir. O texto descreve que no início do céu e da terra, no Takamagahara, este deus veio à existência, seguido por Takamimusubi e Kamimusubi . Esta posição de primazia é inquestionável nesta crônica.

No Nihon Shoki

Nihon Shoki apresenta uma visão mais complexa, incluindo múltiplas variantes do mito da criação :

  • Na narrativa principal, o primeiro deus a aparecer é Kuni-no-Tokotachi.

  • No entanto, numa das variantes (o "quarto" relato alternativo), é afirmado que: "Os nomes dos Deuses que foram produzidos na Planície do Alto Céu foram Ama-no-mi-naka-nushi no Mikoto, em seguida Taka-mi-musubi no Mikoto, em seguida Kami-mi-musubi no Mikoto" . É nesta versão que Ame-no-Minakanushi é mencionado.

Esta discrepância tem levado os estudiosos a acreditar que o Kojiki e o Nihon Shoki podem ter combinado diferentes tradições orais sobre a origem do cosmos .

No Sendai Kuji Hongi

Uma complexidade adicional surge no Sendai Kuji Hongi (também conhecido como Kujiki). Neste texto, a primeira divindade é uma entidade com um nome muito mais longo. Aqui, Ame-no-Minakanushi recebe o alias de Ame-no-Tokotachi-no-Mikoto (um deus diferente no Kojiki) e é contado como parte da primeira geração de deuses que surgiu após essa divindade primária .

A Teoria das Três Tradições

O estudioso Konishi Jin'ichi propôs que as narrativas de criação são uma fusão de três tradições distintas :

  1. Uma que começa com Ame-no-Minakanushi (a tradição seguida pelo Kojiki e uma variante do Nihon Shoki).

  2. Uma que começa com Umashi-Ashikabi-Hikoji.

  3. Uma que começa com Kuni-no-Tokotachi (a tradição principal do Nihon Shoki).

Análise Acadêmica e Interpretações

Uma Deidade Abstrata ou Antiga?

Um dos maiores debates em torno de Ame-no-Minakanushi é se ele era uma divindade realmente adorada ou uma criação conceitual dos compiladores das crônicas imperiais .

Argumentos para uma deidade abstrata/literária:

  • Ausência de culto antigo: Não há registros de santuários dedicados a ele em períodos antigos. O Engishiki, um documento do início do século X que lista todos os santuários xintoístas oficiais da época, não menciona nenhum templo consagrado a Ame-no-Minakanushi .

  • Natureza filosófica: O seu nome e posição são altamente abstratos e especulativos, sugerindo uma influência do pensamento cosmológico chinês (como o Tao e o conceito de "Grande Centro") que estava presente na corte japonesa na época da compilação do Kojiki e Nihon Shoki . Ele parece mais um conceito para explicar a origem do universo do que um deus com uma personalidade ou histórias definidas.

Argumentos para uma divindade com raízes antigas:

  • Outros estudiosos argumentam que a falta de evidências não é prova de inexistência. É possível que o seu culto fosse restrito ou que ele fosse venerado sob outros nomes, e a sua inclusão no topo do panteão nas crónicas reflete uma tradição genuína, ainda que de um grupo específico .

A Função Mitológica do "Centro Oco"

O psicanalista e estudioso da mitologia Kawai Hayao ofereceu uma interpretação fascinante sobre Ame-no-Minakanushi. Ele o comparou a outras divindades "inativas" na mitologia, como Tsukuyomi (o deus da lua) e Hosuseri. Kawai propôs o conceito do "centro oco" . Nesta visão, Ame-no-Minakanushi, sendo o primeiro e estando no centro, mas sem desempenhar qualquer ação narrativa, atua como um "espaço vazio" ou "tampão" que separa e media forças opostas, como as dos outros dois deuses criativos, Takamimusubi e Kamimusubi .

Conexões com outras Mitologias

Konishi Jin'ichi também notou semelhanças impressionantes entre Ame-no-Minakanushi e outras divindades celestes supremas de culturas distantes :

  • Tangaloa na mitologia polinésia.

  • Tengri nas mitologias turca e mongol.
    Estas semelhanças levantam a hipótese de uma possível origem comum muito antiga para estes mitos de um deus do céu primordial.

Genealogia e Descendência

Apesar da sua natureza abstrata, Ame-no-Minakanushi é listado como um ancestral divino em registos genealógicos posteriores. O Shinsen Shōjiroku (815 d.C.), um registo que lista as genealogias das famílias aristocráticas, identifica dois clãs como descendentes de linhagens que remontam a ele :

  • O clã Hattori no Muraji (服部連) , descendente de Ame-no-Mihoko (天御桙命), que seria a 11ª geração de descendentes de Ame-no-Minakanushi.

  • O clã Miteshiro no Obito (御手代首) , descendente de Ame-no-Morokami (天諸神命), um descendente da 10ª geração.

Culto e Sincretismo

A Conexão com Myōken e a Estrela Polar

Embora o culto antigo seja incerto, Ame-no-Minakanushi ganhou enorme proeminência em períodos mais tardios, principalmente devido à sua associação com a divindade budista Myōken (妙見) , que é a personificação da Estrela Polar e da Ursa Maior .

  • Myōken era amplamente venerado desde pelo menos o século VII como um protector celestial, associado à soberania e à ordem cósmica, devido à natureza fixa e central da Estrela Polar.

  • Durante o período moderno inicial, a figura de Myōken e o conceito xintoísta de Ame-no-Minakanushi como o "senhor do centro do céu" fundiram-se, tornando-se essencialmente a mesma entidade para muitos praticantes .

A Era Meiji e a Separação do Budismo e Xintoísmo

Um ponto de viragem crucial para o culto a Ame-no-Minakanushi ocorreu durante a Restauração Meiji (século XIX), com a política de Shinbutsu Bunri (separação do xintoísmo e do budismo) .

  • Muitos santuários que tradicionalmente veneravam Myōken, uma divindade de origem budista, precisaram de ser "reconvertidos" ao xintoísmo puro.

  • Devido à forte associação sincretista entre os dois, Ame-no-Minakanushi foi a escolha natural para se tornar a nova divindade principal (saijin) desses santuários.

  • Exemplos notáveis incluem o Santuário de Chiba (千葉神社) e o Kurume Suitengū (久留米水天宮) , entre muitos outros espalhados pelo Japão .

Santuários Principais

Hoje, Ame-no-Minakanushi pode ser venerado em vários santuários, muitos dos quais têm uma história ligada ao culto de Myōken ou a movimentos de renovação xintoísta:

  • Santuário de Chiba (Chiba-ken)

  • Kurume Suitengū (Fukuoka-ken)

  • Vários santuários associados ao Suitengū (dedicados à divindade das águas, mas frequentemente com associações celestes).

  • Santuários que faziam parte da rede do Taikyōin (大教院) , uma instituição estatal de curta duração no período Meiji que promovia uma doutrina xintoísta unificada, onde Ame-no-Minakanushi era uma das divindades patronas .

Importância no Pensamento Xintoísta Posterior

Kokugaku e a Reavaliação do Kojiki

Durante o período Edo, o movimento intelectual Kokugaku (Estudos Nacionais) redescobriu e reavaliou o Kojiki, que até então era menos estudado do que o Nihon Shoki. Isto elevou o estatuto de Ame-no-Minakanushi .

  • Motoori Norinaga, o maior scholar do Kokugaku, viu Ame-no-Minakanushi como o primeiro deus, mas argumentou que a primazia no tempo não implicava superioridade hierárquica. Para ele, a deusa do sol, Amaterasu, era a governante do Takamagahara e a ancestral divina da linhagem imperial, não Ame-no-Minakanushi .

  • Por outro lado, Hirata Atsutane, um importante discípulo de Motoori, via Ame-no-Minakanushi de forma bem diferente. Descreveu-o como uma deidade suprema, sem princípio nem fim, que reside na Estrela Polar e detém a soberania sobre toda a existência . Esta visão reforçou a ligação entre o deus, o centro do cosmos e o imperador, que governa o "centro" do mundo (o Japão).

Contrapartes em Outras Culturas

Dada a sua natureza como deus primordial e central, Ame-no-Minakanushi é frequentemente comparado a figuras supremas de outras tradições religiosas e mitológicas :

  • Taoísmo: Yuanshi Tianzun (O Venerável Celestial do Princípio) , a primeira e mais pura manifestação do Tao.

  • Hinduísmo: Para Brahman (a Realidade Suprema e impessoal) ou Prajapati (o Senhor das Criaturas).

  • Budismo: Adi-Buddha (o Buda Primordial) ou a personificação do Dharmakaya (a verdade última).

  • Religião Popular Chinesa: O Imperador de Jade, que governa o céu, embora este tenha uma personalidade e histórias muito mais definidas.

  • Religião Coreana: Haneullim ou Hanunim (a divindade suprema do céu).

  • Tradição Abraâmica: Embora haja paralelos no conceito de um Deus Criador único, como Yahweh ou Alá, as diferenças teológicas são profundas, uma vez que Ame-no-Minakanushi não é visto como um criador ex nihilo no mesmo sentido, mas sim como uma emanação primordial do cosmos .

Conclusão

Ame-no-Minakanushi permanece como uma das figuras mais sublimes e misteriosas do panteão xintoísta. Desde a sua posição como o primeiro dos Zōka Sanshin no Kojiki até à sua fusão com a divindade estelar Myōken, ele personifica o mistério da origem e a ordem central do universo. Embora careça de uma personalidade ativa nos mitos, a sua importância como conceito fundamental do centro cósmico, da soberania e da criação tornou-o uma pedra angular do pensamento religioso e filosófico japonês, desde as antigas crónicas da corte até aos movimentos intelectuais do período Edo e aos santuários da era moderna. A sua história é um testemunho de como uma divindade pode ser "inativa" na narrativa, mas "central" para a cosmovisão de uma cultura.

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