Introdução
Tsukuyomi-no-Mikoto (月読命), frequentemente chamado simplesmente de Tsukuyomi, é o enigmático deus da lua no Xintoísmo e na mitologia japonesa. Como o segundo dos "Três Preciosos Filhos" (Mihashira-no-Uzu-no-Miko) nascidos do deus primordial Izanagi, ele ocupa uma posição de destaque no panteão celestial, sendo irmão da poderosa deusa do sol, Amaterasu, e do tempestuoso deus das tormentas, Susanoo . Apesar da sua linhagem nobre, Tsukuyomi é uma figura mais silenciosa e misteriosa, cuja história é marcada por um único e trágico ato que separou para sempre o dia da noite . Este guia explora a fundo a origem, o mito central, o simbolismo e o legado duradouro deste fascinante deus lunar.
Origem e Nomenclatura
O Nascimento Divino
De acordo com as mais antigas crónicas japonesas, o Kojiki (Registo de Assuntos Antigos) e o Nihon Shoki (Crónicas do Japão), Tsukuyomi nasceu de um ritual de purificação . Após o deus criador Izanagi regressar do submundo (Yomi), onde visitara a sua falecida esposa Izanami, ele sentiu-se contaminado pela impureza da morte e realizou um banho ritual (misogi) num rio para se purificar . Foi durante esta ablução que os três deuses mais importantes do Xintoísmo vieram à existência:
Ao lavar o olho esquerdo, nasceu Amaterasu, a deusa do sol .
Ao lavar o nariz, nasceu Susanoo, o deus das tempestades e do mar .
Numa versão alternativa presente no Nihon Shoki, Tsukuyomi teria nascido de um espelho de cobre branco que Izanagi segurava na sua mão direita durante o ritual .
Após o seu nascimento, Izanagi, imensamente feliz com os seus três filhos nobres, dividiu o domínio do mundo entre eles. Tsukuyomi foi encarregado de governar o reino da noite . Ele então ascendeu à Planície do Alto Céu, Takamagahara, para viver ao lado da sua irmã, Amaterasu .
O Significado do Nome
O nome Tsukuyomi é rico em simbolismo e as suas interpretações revelam muito sobre a natureza do deus. É composto por dois elementos principais :
Tsuki (月): Significa "lua" ou "mês" em japonês.
Yomi (読み): É a forma nominal do verbo "ler" (yomu), significando "leitura", "contagem" ou "observação".
Assim, a interpretação mais direta e aceite para Tsukuyomi é "o leitor da lua" ou "aquele que conta os meses" , uma referência poética à função da lua como marcadora da passagem do tempo .
Existem, no entanto, interpretações alternativas fascinantes :
Tsukiyo (月夜) + Mi (見): Uma combinação que resulta em "aquele que contempla a noite de lua" ou "o que observa a noite iluminada pela lua" .
Tsuku (月) + Yumi (弓): No Nihon Shoki, o seu nome é por vezes grafado como Tsukuyumi (月弓), que significa "arco lunar". Acredita-se que esta seja uma variação na pronúncia de "yomi" .
Yomi (黄泉): Alguns especulam que a segunda parte do nome possa ser uma referência a Yomi, o submundo, criando um trocadilho com a sua origem (nascido após Izanagi regressar de Yomi). No entanto, esta interpretação não é amplamente aceite pelos estudiosos .
Ele é formalmente referido por vários títulos honoríficos, incluindo Tsukuyomi-no-Mikoto (月読尊), Tsukiyomi-no-Kami (月夜見の尊) e Tsukuyomi-no-Mikoto (月読の命), todos refletindo o seu elevado estatuto divino .
O Mito Central: O Banquete de Ukemochi e a Separação Eterna
Ao contrário dos seus irmãos, Amaterasu e Susanoo, cujas vidas são repletas de aventuras e conflitos, Tsukuyomi aparece na mitologia clássica num único episódio significativo, mas de consequências eternas. Este mito explica a origem da separação entre o dia e a noite .
O Convite e a Viagem
Um dia, a deusa da comida, Ukemochi (também conhecida como Ōgetsuhime), ofereceu um grande banquete em seu palácio. A deusa do sol, Amaterasu, foi convidada, mas não podendo comparecer, enviou o seu irmão Tsukuyomi como seu representante .
A Criação Repugnante do Alimento
Ao chegar ao palácio, Ukemochi preparou um suntuoso banquete para receber o ilustre visitante. No entanto, a forma como a deusa criou a comida encheu Tsukuyomi de horror e repulsa. Segundo a lenda, Ukemochi :
Voltou-se para o oceano e cuspiu peixes.
Voltou-se para a floresta e, pela boca, trouxe caça.
Voltou-se para os campos de arroz e tossiu uma tigela de arroz cozido.
Para Tsukuyomi, um deus que prezava a pureza e as boas maneiras, preparar um banquete utilizando o próprio corpo como fonte de alimento, regurgitando os ingredientes, foi um ato profano e repugnante .
O Assassinato e a Fúria de Amaterasu
Tomado por um acesso de fúria e nojo, Tsukuyomi não conteve a sua ira. Desembainhou a sua espada e matou Ukemochi ali mesmo . Este ato violento, embora chocante, teve uma consequência inesperada para a humanidade. Do corpo sem vida da deusa da comida, nasceram todos os alimentos básicos que sustentam os seres humanos :
Da sua cabeça, nasceram os bois e os cavalos.
Da sua testa, nasceu o painço.
Das suas sobrancelhas, nasceram os bichos-da-seda.
Do seu estômago, nasceu o arroz.
Dos seus genitais, nasceram o trigo e os feijões.
Quando Amaterasu soube do que o seu irmão tinha feito, ficou furiosa e profundamente magoada. Ela declarou que nunca mais queria voltar a ver o seu irmão assassino. Amaterasu baniu-o para sempre da sua presença, mudando-se para a parte mais distante do céu .
A Explicação Mitológica
É por esta razão, segundo a mitologia, que o Sol (Amaterasu) e a Lua (Tsukuyomi) nunca são vistos juntos no céu. Quando um nasce, o outro se esconde, criando o ciclo eterno do dia e da noite . Numa versão posterior do mito, o assassino de Ukemochi é identificado como Susanoo, o que pode indicar uma tentativa de suavizar o carácter violento do deus da lua ou uma fusão de diferentes tradições orais .
Caracterização e Simbolismo
Personalidade Complexa
Tsukuyomi é frequentemente descrito como uma figura de personalidade complexa e paradoxal :
Sereno e Ordeiro: Ele é visto como um deus calmo, elegante e com uma postura serena, que preza as regras e o decoro. A sua associação com a lua confere-lhe um ar de mistério e beleza tranquila .
Violento e Impiedoso: No entanto, o mito de Ukemochi revela o seu lado sombrio e imprevisível. A sua rigidez moral é tão extrema que, perante o que considera uma violação das normas, reage com violência brutal. Esta dualidade reflete a própria natureza da lua, que pode ser bela e serena numa noite clara, mas também misteriosa e associada à escuridão e ao que é desconhecido . Algumas interpretações sugerem que o seu temperamento poderia variar conforme as fases da lua .
Simbolismo e Atributos
A Lua: O seu símbolo máximo representa o mistério, a passagem do tempo, a beleza noturna e a introspeção .
Dualidade: Tsukuyomi personifica a dualidade presente em muitos aspetos da natureza e da existência: ordem e ruptura, serenidade e violência, luz refletida e escuridão .
Espada: A sua arma, usada para matar Ukemochi, simboliza o poder, a autoridade e a capacidade de punir o que é considerado impuro ou errado .
Arco (Tsukuyumi): A grafia alternativa do seu nome como "Arco Lunar" (Tsukuyumi) associa-o a este objeto, que pode simbolizar a sua capacidade de "disparar" a luz da lua ou de marcar a passagem do tempo .
Culto e Locais Sagrados
Embora Tsukuyomi não tenha um culto tão difundido como a sua irmã Amaterasu, ele é venerado em alguns santuários importantes por todo o Japão, onde os fiéis buscam a sua proteção e bênção .
Matsunoo-taisha (Kyoto): Este é provavelmente o santuário mais famoso associado a Tsukuyomi. Localizado em Quioto, o seu santuário auxiliar (Sessha), denominado Tsukuyomi Jinja, é dedicado ao deus da lua. A imagem deste pequeno santuário é frequentemente usada para ilustrar artigos sobre o deus .
Santuário de Tsukuyomi (Kagoshima): Localizado na província de Kagoshima, é um dos poucos santuários principais dedicados exclusivamente a ele.
Santuário de Izanagi (Awaji): Por ser seu local de nascimento, Tsukuyomi é frequentemente homenageado em santuários dedicados ao seu pai, Izanagi.
Em alguns festivais locais, a lua é celebrada em sua honra com rituais noturnos, danças e oferendas, renovando a ligação entre os japoneses e o cosmos .
Tsukuyomi na Cultura Popular Contemporânea
O enigmático deus da lua transcendeu a mitologia e tornou-se uma figura recorrente na cultura popular moderna, tanto no Japão como no ocidente, onde o seu nome poderoso e a sua aura de mistério são frequentemente utilizados .
Exemplos Notáveis:
Naruto: "Tsukuyomi" é o nome de uma técnica de genjutsu (ilusão) suprema e proibida do clã Uchiha, pertencente aos usuários do Mangekyou Sharingan, em especial Uchiha Itachi. A técnica aprisiona a mente do adversário num mundo ilusório onde o usuário tem total controlo sobre o espaço e o tempo, uma clara alusão ao poder da lua sobre a percepção do tempo e da realidade .
Nome Oficial da Lua: No Japão, o nome oficial da Lua terrestre é "Tsukuyomi" .
Ōkami: Neste aclamado videojogo, a espada usada pelo herói Nagi (uma versão de Izanagi) para derrotar o monstro Orochi chama-se "Tsukuyomi". Ironicamente, a lâmina da espada tem o desenho de uma lua crescente .
God Eater: Tsukuyomi aparece como um Aragami divino, um poderoso ser com forma humana que desempenha um papel importante na trama do jogo .
Persona: Apesar de não ser uma Persona jogável nos títulos principais, Tsukuyomi aparece em spin-offs e produtos derivados, representando frequentemente o poder da noite e da mente.
Conclusão
Tsukuyomi-no-Mikoto é, sem dúvida, o mais enigmático dos três filhos nobres de Izanagi. A sua história, resumida a um único ato de violência motivado por um rígido senso de pureza, teve consequências eternas, separando o dia da noite e estabelecendo a ordem cósmica que conhecemos. Mais do que um simples deus da lua, Tsukuyomi personifica a dualidade da existência—a beleza serena da noite e a escuridão imprevisível que ela pode esconder. O seu legado, embora menos celebrado em rituais antigos, permanece vivo na cultura japonesa, desde a nomeação oficial do satélite natural da Terra até às poderosas técnicas de ilusão no anime e manga modernos, provando que até o mais silencioso dos deuses pode deixar uma marca indelével no imaginário humano .

0 Comments:
Postar um comentário