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Ōkuninushi: O Bondoso Construtor da Terra e Deus dos Relacionamentos no Japão




 Introdução

Se Hachiman é o protetor dos guerreiros e Tenjin o padroeiro dos estudantes, Ōkuninushi (大国主神) ocupa um lugar igualmente central, porém distinto, no coração da mitologia japonesa. Conhecido como o "Grande Mestre da Terra" (Ōkuni-nushi), ele é o lendário construtor e governante da região de Izumo antes da ascensão da linhagem imperial vinda de Takamagahara (as Planícies Celestiais) .

Sua história é uma das mais ricas e humanas do panteão xintoísta. É uma epopeia de sofrimento, resiliência, amor e, finalmente, aceitação. De um jovem perseguido por seus ciúmentos irmãos, ele se tornou o grande arquiteto do país, um deus da cura, da agricultura e, acima de tudo, o kami do matrimônio e dos relacionamentos . Venerado principalmente no imponente Santuário de Izumo Taisha, Ōkuninushi personifica a sabedoria adquirida através da adversidade e a benevolência para com a humanidade. Este artigo explora a fundo suas origens, seus feitos, seus amores e seu legado eterno.


1. Origem e Significado do Nome Ōkuninushi

O nome Ōkuninushi (大国主) é altamente significativo e traduz-se literalmente como "Senhor da Grande Terra" ou "Mestre da Terra" . Este título reflete seu papel primordial na mitologia como o governante terreno que moldou e civilizou o arquipélago japonês, conhecido na época como Ashihara no Nakatsukuni (苇原中国) , a "Terra Central dos Planaltos de Juncos" .

Ele é uma divindade conhecida por uma miríade de outros nomes, cada um destacando um aspecto de sua personalidade ou de seus feitos. Entre seus vários epítetos estão:

  • Ōnamuchi (大己貴命): "Grande Tesouro" ou "Grande Nome".

  • Yachihoko (八千矛神): "Deus das Oito Mil Lanças", uma referência à sua bravura e poder marcial .

  • Utsushikunitama (顕国玉神): "O Espírito que Manifesta a Terra".

  • Ashihara Shikowo (葦原醜男): "O Homem Feio dos Planaltos de Juncos", um nome que ele mesmo usou em momentos de humildade .

Sua genealogia é objeto de algumas variações entre os textos antigos. Enquanto o Nihon Shoki o descreve como filho de Susano-o, o impetuoso deus das tempestades, o Kojiki o coloca como descendente (sexta ou sétima geração) de Susano-o, o que o torna parte de um importante ramo divino conhecido como a linhagem de Izumo .

2. O Jovem Perseguido: A Lenda da Lebre de Inaba

A juventude de Ōkuninushi é marcada por sofrimento e uma bondade inata. A história mais famosa deste período é a "Lenda da Lebre de Inaba" (因幡の白兎, Inaba no Shirousagi) , que também explica sua conexão com o amor e a compaixão .

A história se desenrola da seguinte forma:

  • A Jornada dos Irmãos: Ōkuninushi, então conhecido como Ōnamuchi, viajava com seus muitos e ciumentos irmãos (os Yasokami ou "oitenta deuses") para a província de Inaba. Eles desejavam cortejar a princesa Yagami-hime (八上比売) .

  • A Lebre Pelada: No caminho, eles encontraram uma lebre sem pele, chorando na praia. A lebre havia enganado tubarões (ou crocodilos, conforme a tradução) para atravessar o mar, mas o último tubarão a despelou como vingança. Os irmãos de Ōkuninushi, cruéis, aconselharam a lebre a se banhar na água do mar e se expor ao vento, o que só piorou sua dor .

  • A Compaixão de Ōnamuchi: Quando Ōkuninushi chegou e viu a lebre sofrendo, ele se compadeceu. Em vez de zombar, ele aconselhou a lebre a se lavar na água doce de um rio e depois se deitar sobre as folhas de "gama" (taboa), o que a curou milagrosamente.

  • A Profecia: Grata, a lebre profetizou que Ōnamuchi, e não seus irmãos cruéis, seria bem-sucedido em cortejar Yagami-hime . A profecia se cumpriu: a princesa se encantou com sua bondade e o escolheu como marido, apesar de já estar prometida a seus irmãos.

Este ato de compaixão, no entanto, teve um preço alto. Enfurecidos pelo sucesso do irmão mais novo, os oitenta deuses o mataram duas vezes, esmagando-o e rolando uma pedra sobre ele. Em ambas as ocasiões, ele foi ressuscitado por sua mãe, a deusa Kushinada-hime (ou Kamimusubi) , consolidando seu título de "deus da ressurreição" .

3. A Jornada ao Submundo e o Encontro com Susano-o

Percebendo que não poderia enfrentar os irmãos sozinho, Ōkuninushi fugiu para o submundo, o reino dos mortos chamado Ne-no-Kuni (根堅州国) , governado por Susano-o . Lá, ele conheceu e se apaixonou pela filha de Susano-o, a bela Suseri-hime (須勢理姫) .

Susano-o, vendo a paixão da filha, submeteu Ōkuninushi a uma série de terríveis provações para testar sua coragem e determinação:

  • Dormir em uma cama de cobras.

  • Dormir em uma cama de centopeias e abelhas.

  • Atirar uma flecha em um vasto deserto e depois recuperá-la.

  • Arrancar insetos venenosos de sua própria cabeça.

Em cada prova, Ōkuninushi foi salvo pelos conselhos e pela ajuda de Suseri-hime. Na prova final, enquanto Susano-o dormia, Ōkuninushi amarrou seus cabelos nas vigas do palácio, roubou sua espada, arco e flechas, e fugiu com Suseri-hime nas costas .

Ao acordar e perceber a fuga, Susano-o os perseguiu até a fronteira de Ne-no-Kuni. Surpreendentemente, em vez de puni-lo, ele o abençoou. Reconhecendo sua bravura, Susano-o o proclamou Ōkuninushi ("Grande Mestre da Terra") e ordenou que ele usasse as armas roubadas para derrotar seus irmãos e se tornar o governante legítimo de Ashihara no Nakatsukuni, com Suseri-hime como sua esposa principal .

4. A Construção do País: O Trabalho em Parceria

De volta à superfície, Ōkuninushi usou os presentes de Susano-o para subjugar seus irmãos e estabelecer seu domínio sobre a terra. Mas sua maior obra de construção do país ("Kunizukuri") não foi feita sozinho .

Ele contou com a ajuda de um parceiro divino, o pequeno e engenhoso deus Sukuna-bikona (少名毘古那神) . Este deus diminuto, que veio do além-mar em um pequeno barco feito de um fruto de "kagami" (uma planta trepadeira), era filho de Kamimusubi . Juntos, Ōkuninushi e Sukuna-bikona percorreram a terra, dedicando-se a:

  • Abrir terras para cultivo.

  • Estabelecer as técnicas de medicina e cura para as doenças .

  • Criar rituais e métodos para afastar pragas de insetos e outros males que ameaçavam as colheitas e os animais .

Seu trabalho era tão completo e harmonioso que tornou a terra próspera e habitável. Quando Sukuna-bikona partiu para o reino eterno de Tokoyo (常世国), Ōkuninushi se sentiu solitário e temia não conseguir completar a obra sozinho . Foi então que uma luz brilhante apareceu sobre o mar e uma voz divina se ofereceu para ajudá-lo, caso ele a consagrasse. Ōkuninushi perguntou quem era a voz, e ela respondeu: "Eu sou sua 'Sakimitama' (espírito de felicidade) e 'Kushimitama' (espírito de sabedoria)" .

Essa divindade era, na verdade, seu próprio espírito vital (um conceito xintoísta de almas múltiplas), que se manifestou e pediu para ser adorado no Monte Miwa, em Yamato, tornando-se o deus Ōmononushi (大物主神) , uma forma de seu próprio "espírito harmonioso" (Nigitama) que completaria a criação da nação .

5. O "Kuniyuzuri": A Transferência da Terra

Apesar de todo o seu trabalho, o destino de Ōkuninushi como governante estava prestes a mudar. A deusa do sol, Amaterasu, que governava o céu (Takamagahara), decidiu que seu neto, Ninigi-no-Mikoto, deveria descer e governar a Terra de Ashihara no Nakatsukuni .

Ela enviou vários emissários para negociar a "transferência da terra" ("Kuniyuzuri") com Ōkuninushi, mas todos falharam. Por fim, enviou os poderosos deuses Take-mikazuchi (建御雷神) , o deus do trovão e da espada, e Ame-no-torifune (天鳥舟神) .

Eles desceram à praia de Inasa, em Izumo, e desafiaram Ōkuninushi. Com grande dignidade, Ōkuninushi consultou seus dois filhos principais:

  • Kotoshironushi (事代主神) , seu filho que personificava a palavra divina, imediatamente concordou em ceder a terra e desapareceu.

  • Takeminakata (建御名方神) , seu filho guerreiro, não aceitou e desafiou Take-mikazuchi para um teste de força. Na luta, Takeminakata foi derrotado e fugiu para as montanhas de Shinano (atual Lago Suwa), onde se tornou o deus padroeiro da região .

Vendo a vontade dos deuses celestiais e a derrota de seu filho, Ōkuninishi, com grandeza de espírito, aceitou entregar o domínio político da terra a Ninigi. Em troca, ele fez uma exigência fundamental: que lhe fosse construído um magnífico santuário em Izumo, tão imponente quanto o palácio onde o novo governante viveria, para que ele pudesse ali residir em paz e continuar zelando pelos assuntos espirituais e pelos relacionamentos humanos . Amaterasu concordou, e assim nasceu o Izumo Taisha.

6. Símbolos e Iconografia

Ōkuninushi é uma divindade com uma iconografia rica e facilmente reconhecível, frequentemente retratada de forma amigável e acessível.

SímboloSignificado e Associação
O Grande Saco (Tawara)Na cultura popular, especialmente em canções infantis como "Daikokusama", Ōkuninushi é frequentemente confundido ou sincretizado com o deus Daikokuten (uma das Sete Divindades da Sorte). Ele é retratado carregando um grande saco de arroz ou tesouros sobre os ombros, simbolizando prosperidade, fertilidade e abundância .
O Martelo (Uchide no Kozuchi)Outro símbolo derivado do sincretismo com Daikokuten é o martelo dos desejos, que ao ser balançado realiza os sonhos de quem o possui.
A Lebre (Usagi)A lebre de Inaba é um de seus símbolos mais queridos, representando sua compaixão, a superação de obstáculos e o amor. Estátuas de lebres são comuns nos jardins do Izumo Taisha.
O Rato (Nezumi)Em algumas versões da lenda, ratos o ajudaram a escapar de uma prova de Susano-o em Ne-no-Kuni, por isso também são vistos como mensageiros ou símbolos associados a ele.

7. O Grande Santuário de Izumo: A Morada de Ōkuninushi

Izumo Taisha (出雲大社) , na província de Shimane, é o centro da fé em Ōkuninushi e um dos santuários mais sagrados e antigos do Japão, rivalizando em importância com o Grande Santuário de Ise .

  • Arquitetura Imponente: O santuário é construído no estilo mais antigo da arquitetura xintoísta, o Taisha-zukuri, caracterizado por sua simplicidade, madeira sem pintura e pilares maciços . Acredita-se que, na antiguidade, sua altura chegava a 48 metros, o que o tornaria a maior estrutura de madeira do mundo antigo .

  • Tesouro Nacional: O edifício principal atual (Honden) data de 1744 e é designado como Tesouro Nacional do Japão .

  • O Shimenawa Gigante: No Kaguraden (salão de danças sagradas), encontra-se um dos maiores shimenawa (corda sagrada de palha de arroz) do Japão, com peso de várias toneladas. É um símbolo da separação entre o mundo terreno e o divino .

  • Ritual de Oração Único: A forma de orar no Izumo Taisha é diferente da maioria dos santuários. Enquanto o padrão é "2 reverências, 2 palmas e 1 reverência", em Izumo é "2 reverências, 4 palmas e 1 reverência" . Acredita-se que as duas palmas extras sejam dedicadas ao parceiro ou à busca por um bom relacionamento, refletindo o papel de Ōkuninushi como deus do enlace .

8. O Mês dos Deuses: Kannazuki e Kamiarizuki

Outro aspecto fascinante ligado a Ōkuninushi é o calendário religioso japonês. Em todo o Japão, o décimo mês do calendário lunar (outubro no calendário moderno) é chamado de Kannazuki (神無月) , que significa "o mês sem deuses" .

A razão para isso é a crença de que, durante este mês, todos os oito milhões de kami (deuses) do Japão deixam seus santuários e se reúnem no Izumo Taisha para uma grande assembleia, discutindo assuntos importantes como casamentos e relacionamentos humanos para o ano seguinte .

Por essa razão, na província de Shimane, o mesmo mês é chamado de Kamiarizuki (神在月) , ou "o mês com deuses" . Este festival, o Kamiari-sai, é a celebração mais importante do santuário, atraindo visitantes que vêm dar as boas-vindas aos deuses .

Conclusão: O Legado do Grande Construtor

Ōkuninushi é, sem dúvida, uma das divindades mais complexas e humanas do Xintoísmo. Sua história é um testemunho de que a verdadeira força não reside apenas no poder bruto, mas na compaixão, na resiliência diante do sofrimento e na sabedoria para ceder quando necessário.

De um jovem atormentado pela inveja dos irmãos, ele se ergueu para se tornar o grande arquiteto civilizador do Japão, um patrono da medicina e da agricultura. E, em seu momento mais crucial, demonstrou grandeza de espírito ao aceitar a transferência do poder político, garantindo em troca um lar eterno onde pudesse continuar a cuidar do que é mais precioso: os laços de amor e união entre as pessoas.

Hoje, milhões visitam o Izumo Taisha não apenas para pedir prosperidade, mas para buscar sua bênção em relacionamentos amorosos, casamentos felizes e na construção de famílias sólidas. Ōkuninushi permanece, assim, como o eterno e bondoso patriarca da terra japonesa, um símbolo de que, mesmo após a adversidade, é possível construir um mundo melhor com parceria, sabedoria e um coração generoso .

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