Sumário
Introdução
1. Quem é Ōyamatsumi? Nomes e Significados
2. Origens Divinas: O Nascimento de Ōyamatsumi
3. A Genealogia Complexa: Família e Descendência
4. O Papel Central na Mitologia Japonesa
5. O Simbolismo de Ōyamatsumi
6. Santuários e Adoração
7. Ōyamatsumi na Cultura Popular
Conclusão
Introdução
Entre os inúmeros kami (deuses) que povoam o rico panteão da mitologia japonesa, poucos são tão fundamentais e ao mesmo tempo tão discretos quanto Ōyamatsumi (大山津見) . Conhecido como o grande deus das montanhas, Ōyamatsumi ocupa uma posição singular no xintoísmo: ele é ao mesmo tempo uma divindade primordial, nascida dos deuses criadores Izanagi e Izanami, e o patriarca de uma vasta linhagem que conecta os deuses celestiais aos imperadores do Japão .
Sua importância, no entanto, vai muito além de sua genealogia. Ōyamatsumi é uma divindade de múltiplas faces: deus das montanhas, do mar, da guerra, do saquê e protetor dos navegantes . Sua história se entrelaça com os mitos mais famosos do Japão, desde a morte do deus do fogo Kagutsuchi até o casamento do neto da deusa solar Amaterasu com sua filha, a bela Konohanasakuya-hime, a própria deusa do Monte Fuji.
Este artigo é um guia completo e detalhado sobre Ōyamatsumi. Exploraremos suas origens, sua complexa família, seu papel nos textos clássicos Kojiki e Nihon Shoki, seu simbolismo multifacetado e seu legado duradouro, que inclui mais de 10 mil santuários espalhados pelo Japão e uma presença sutil, mas significativa, na cultura pop moderna .
1. Quem é Ōyamatsumi? Nomes e Significados
O nome Ōyamatsumi é uma janela para sua essência divina. Ele é composto por três elementos:
Ō (大) : significa "grande" ou "imenso", um prefixo honorífico.
Yama (山) : significa "montanha".
Tsu (津) : uma partícula possessiva antiga, equivalente a "no" em japonês moderno, significando "de" ou "do".
Mi (見) : comumente interpretado como "espírito" ou "divindade", mas também pode significar "corpo" .
Assim, Ōyamatsumi pode ser traduzido como "O Grande Espírito das Montanhas" ou "O Grande Corpo das Montanhas" , uma personificação das próprias montanhas como entidades sagradas e vivas .
Múltiplos Nomes, Uma Divindade
Como muitos kami importantes, Ōyamatsumi é conhecido por diversos nomes, que refletem diferentes aspectos de sua personalidade divina e as tradições textuais em que aparece:
2. Origens Divinas: O Nascimento de Ōyamatsumi
A origem de Ōyamatsumi é contada de duas formas ligeiramente diferentes nas principais crônicas japonesas, o que é comum na mitologia do país.
No Kojiki: Filho dos Deuses Criadores
De acordo com o Kojiki (Registro de Assuntos Antigos), Ōyamatsumi nasceu durante o período da criação do mundo conhecido como Kamiumi (Nascimento dos Deuses). Após criarem as ilhas do Japão, os deuses primordiais Izanagi e Izanami prosseguiram gerando divindades que personificavam os elementos da natureza. Foi assim que, depois do deus do vento (Shinatsuhiko) e do deus das árvores (Kukunochi), nasceram Ōyamatsumi, o deus das montanhas, e sua irmã Kaya-no-hime, a deusa dos campos e da vegetação rasteira .
No Nihon Shoki: Nascido da Morte de Kagutsuchi
O Nihon Shoki (Crônicas do Japão) apresenta uma versão alternativa e mais violenta. Quando Izanagi, enfurecido pela morte de sua amada Izanami causada pelo fogo do deus Kagutsuchi, decapita o filho com sua espada, o corpo do deus do fogo se desmembra. De diferentes partes de Kagutsuchi, nascem novas divindades. Em uma das versões do texto, o deus do trovão, Ōyamatsumi e o deus da chuva (Kuraokami) surgem dos três pedaços em que Kagutsuchi é cortado . Em outra versão, o corpo é dividido em cinco partes, e a cabeça se transforma em Ōyamatsumi .
Essa dualidade de origens é fascinante: Ōyamatsumi é tanto um deus primordial, nascido diretamente dos criadores do mundo, quanto uma divindade que emerge da morte violenta do fogo, conectando-se assim ao ciclo de destruição e criação que é tão central na mitologia japonesa.
3. A Genealogia Complexa: Família e Descendência
Se há uma coisa que define Ōyamatsumi no panteão japonês, é sua prolífica descendência. Ele é o patriarca de uma vasta linhagem de deuses que se entrelaça com as principais famílias divinas do Japão.
União com Kaya-no-hime: Os Deuses da Paisagem
Com sua irmã, a deusa dos campos Kaya-no-hime (também conhecida como Nozuchi), Ōyamatsumi gerou oito divindades que personificam elementos específicos da paisagem terrestre :
Ame-no-Sazuchi (天之狭土神) - Espírito do solo estreito/celestial
Kuni-no-Sazuchi (国之狭土神) - Espírito do solo estreito/terrestre
Ame-no-Sagiri (天之狭霧神) - Espírito da névoa celeste
Kuni-no-Sagiri (国之狭霧神) - Espírito da névoa terrestre
Ame-no-Kurado (天之闇戸神) - Espírito da porta escura celeste
Kuni-no-Kurado (国之闇戸神) - Espírito da porta escura terrestre
Ōtomatohiko (大戸惑子神) - Deus masculino do grande portão
Ōtomato-hime (大戸惑女神) - Deusa feminina do grande portão
Essas divindades representam as forças sutis que moldam e protegem o mundo natural, como o solo, a névoa e os limites entre os espaços.
Filhos e Filhas Importantes
Ōyamatsumi é pai de várias divindades que desempenham papéis cruciais em outros mitos. Entre elas, destacam-se:
Kamuōichihime (神大市比売) : Casou-se com o deus tempestuoso Susanoo e deu à luz Ōtoshi-no-Kami (deus das grandes colheitas) e Ukamochi-no-Kami/Ukanomitama (deusa dos alimentos, frequentemente associada a Inari) .
Ashinazuchi (足名椎) e Tenazuchi (手名椎) : Um casal de divindades idosas que se identificam como filhos de Ōyamatsumi. Eles são os pais de Kushinadahime, a princesa que Susanoo salva da serpente Yamata-no-Orochi e com quem se casa .
Konohanachiru-hime (木花知流比売) : Casou-se com Yashimajinumi, filho de Susanoo e Kushinadahime, continuando a intrincada teia genealógica que conecta as duas famílias .
Iwanaga-hime (石長比売) : A princesa da "longevidade das rochas", oferecida em casamento ao neto de Amaterasu.
Konohanasakuya-hime (木花之佐久夜毘売) : A princesa da "floração das árvores", irmã mais nova de Iwanaga-hime e figura central no mito da descida do neto celestial .
É importante notar que as genealogias podem variar entre as fontes. Alguns textos medievais posteriores, por exemplo, atribuem a Ōyamatsumi a paternidade de Ashinazuchi e Tenazuchi, o que não é explicitamente afirmado nos textos clássicos principais .
4. O Papel Central na Mitologia Japonesa
Embora Ōyamatsumi raramente seja o protagonista de uma história, ele é uma figura essencial que age como catalisador e elo de ligação em dois dos mitos mais importantes do Japão: a descida do neto celestial (Tenson Kōrin) e a derrota da serpente Yamata-no-Orochi.
A Maldição da Mortalidade: O Casamento de Ninigi
O mito mais famoso envolvendo Ōyamatsumi é o do casamento de sua filha com o príncipe celestial Ninigi-no-Mikoto, neto da deusa do sol Amaterasu. Quando Ninigi desceu do céu para governar a terra, ele encontrou a bela Konohanasakuya-hime e se apaixonou . Ōyamatsumi, honrado com o pedido, ofereceu ao jovem deus suas duas filhas: a irmã mais velha, Iwanaga-hime (Princesa da Longevidade da Rocha), e a mais nova, Konohanasakuya-hime (Princesa da Floração das Árvores) .
No entanto, Ninigi achou Iwanaga-hime feia e a rejeitou, enviando-a de volta ao pai e ficando apenas com a bela Konohanasakuya-hime. Isso enfureceu Ōyamatsumi, que proferiu uma maldição que ecoaria por toda a história do Japão:
"A razão pela qual ofereci minhas duas filhas juntas foi porque fiz um juramento de que, com Iwanaga-hime, a vida do neto celestial (Ninigi) seria eterna como uma rocha. Mas como ele a enviou de volta, a expectativa de vida do neto celestial será curta, como as flores das árvores" .
Desta forma, Ōyamatsumi é o responsável por introduzir a mortalidade na linhagem imperial. Os imperadores do Japão, descendentes de Ninigi, não seriam deuses imortais, mas sim mortais, com vidas tão belas e efêmeras quanto as flores de cerejeira (sakura) .
O Patriarca que Conecta Mundos
Além deste mito crucial, Ōyamatsumi serve como um elo genealógico fundamental. Através de suas filhas, ele conecta a linhagem celestial de Amaterasu (via Ninigi) com a linhagem terrena de Susanoo. Seus descendentes povoam ambas as árvores genealógicas, tornando-o uma espécie de patriarca comum que unifica o panteão japonês e, por extensão, justifica o domínio celestial sobre a terra .
Sua filha Kamuōichihime casa-se com Susanoo, e seus netos (Ōtoshi e Ukanomitama) são divindades agrícolas vitais. Seus "filhos" Ashinazuchi e Tenazuchi são os pais de Kushinadahime, que se casa com Susanoo e dá continuidade à linhagem de Izumo . Dessa forma, Ōyamatsumi está na raiz de quase todas as principais famílias divinas.
5. O Simbolismo de Ōyamatsumi
A grandeza de Ōyamatsumi reside em sua natureza multifacetada. Ele não é apenas um deus, mas uma constelação de atributos que evoluíram ao longo dos séculos.
O Deus das Montanhas e da Fertilidade
Em sua essência, Ōyamatsumi é a personificação das montanhas, que no Japão antigo eram vistas como morada dos deuses, fonte de rios e, portanto, de vida e fertilidade. As montanhas forneciam caça, madeira, água para irrigação e eram os locais de descanso dos espíritos dos ancestrais. Como "Grande Espírito das Montanhas", ele é o provedor de todos esses recursos e o guardião dos ciclos da natureza .
O Deus do Mar e Protetor dos Navegantes
Seu nome alternativo, Watashi-no-Ōkami (Deus da Travessia), revela uma faceta inesperada. As montanhas, vistas do mar, são os primeiros pontos de referência para os navegantes. Assim, Ōyamatsumi tornou-se naturalmente um protetor das viagens marítimas e um deus do mar, especialmente venerado na região do Mar Interior de Seto, onde seu santuário principal, o Ōyamazumi Jinja, está localizado na ilha de Ōmishima, um ponto crucial para a navegação .
O Deus da Guerra e dos Guerreiros
Devido à sua proteção sobre as travessias marítimas, Ōyamatsumi passou a ser adorado por clãs de guerreiros que dependiam do mar para se deslocar e lutar. Durante o período medieval, ele se tornou um patrono de figuras samurais lendárias, como Minamoto no Yoshitsune e o imperador Go-Daigo, que lhe dedicaram armaduras e espadas. Muitos destes tesouros ainda estão preservados no santuário de Ōyamazumi, que abriga uma das mais importantes coleções de armamentos samurais do Japão .
O Deus do Saquê e da Celebração
O epíteto Sakatoke-no-Kami (Deus que Resolve o Saquê) tem origem numa lenda. Conta-se que, quando seu neto (ou bisneto, dependendo da versão), o herói Yamasachihiko (também conhecido como Hohodemi), nasceu, Ōyamatsumi ficou tão feliz que preparou um saquê doce celestial (amai-tamagake) e o ofereceu a todos os deuses em celebração. Por isso, ele é venerado como o patrono dos produtores de saquê e das bebidas alcoólicas em geral .
6. Santuários e Adoração
Ōyamatsumi é um dos kami mais amplamente venerados no Japão. De acordo com uma pesquisa da agência de santuários xintoístas (Jinja Honcho) de 1972, ele é o quinto kami mais comum como divindade principal em santuários, com mais de 10 mil santuários dedicados a ele em todo o país .
Ōyamazumi Jinja: O Grande Santuário Principal
O santuário mais importante dedicado a Ōyamatsumi é o Ōyamazumi Jinja (大山祇神社) , localizado na ilha de Ōmishima, na província de Ehime, no coração do Mar Interior de Seto . Este santuário é considerado o sōhonsha (santuário principal) de todos os mais de 10 mil santuários que veneram o deus.
Fundado em tempos imemoriais, o Ōyamazumi Jinja é um local de poder e história. Devido à sua localização estratégica, tornou-se um ponto de parada obrigatório para navegantes e guerreiros, que deixavam oferendas em troca de proteção. O santuário abriga um tesouro inestimável: uma coleção de mais de 140 itens designados como Tesouros Nacionais do Japão ou Propriedades Culturais Importantes, incluindo espadas, armaduras e espelhos doados por figuras históricas como Minamoto no Yoritomo, Minamoto no Yoshitsune e até mesmo pelo famoso comandante mongol que tentou invadir o Japão .
Redes de Santuários
A adoração a Ōyamatsumi se ramifica em três principais redes de santuários :
| Tipo de Santuário | Número Aproximado | Características |
|---|---|---|
| Ōyamatsumi Jinja /大山積神社 | 897 | Santuários que usam o nome principal. Concentram-se em Kochi, Gunma, Fukuoka. |
| Mishima Jinja (三島神社) | 402 | Santuários dedicados a Ōyamatsumi sob o epíteto "Mishima Daimyōjin". O Mishima Taisha em Shizuoka é o mais famoso. Forte presença em Ehime. |
| Yama Jinja (山神社) | 3075 | Santuários dedicados ao deus das montanhas, muitos dos quais o identificam com Ōyamatsumi. São geralmente menores e mais difusos, com forte presença em Aichi, Shizuoka, Nagano. |
Além disso, Ōyamatsumi é venerado em muitos outros santuários famosos, como o Santuário Asama (associado a Konohanasakuya-hime), o Santuário Oyama Afuri em Kanagawa e até mesmo dentro do complexo do Grande Santuário de Ise, dedicado a Amaterasu .
7. Ōyamatsumi na Cultura Popular
Embora não seja tão onipresente na cultura pop moderna quanto deuses como Raijin ou Kagutsuchi, Ōyamatsumi faz aparições significativas, especialmente em jogos e animes que se aprofundam na mitologia japonesa.
Jogos:
Okami: O popular jogo da Capcom, que é uma carta de amor à mitologia japonesa, apresenta Ōyamatsumi como um dos seres divinos que habitam o mundo.
Shin Megami Tensei: Na famosa série de RPGs, Ōyamatsumi frequentemente aparece como um demônio (ou kami) que pode ser recrutado ou enfrentado pelo jogador.
Monster Strike: O popular jogo mobile japonês inclui Ōyamatsumi como uma das unidades (personagens) que os jogadores podem obter.
Animes e Mangás:
Naruto: Embora não apareça diretamente, sua filha, Konohanasakuya-hime, é mencionada e sua lenda é um paralelo à história de fundo de certos personagens. A influência de Ōyamatsumi como um "deus ancestral" é sentida na estrutura mitológica do mundo.
Sua presença, mesmo que sutil, serve como um lembrete de que o tecido da mitologia japonesa é intrincado e que até mesmo as figuras mais discretas têm um papel fundamental a desempenhar.
Conclusão
Ōyamatsumi é, em muitos aspectos, a personificação do próprio Japão. Ele é a majestade silenciosa e imponente das montanhas, a força provedora que alimenta os rios e fertiliza os campos, e o guardião que protege aqueles que cruzam os mares. Sua história é tecida nos próprios alicerces da mitologia japonesa, desde os primórdios da criação até a formação da linhagem imperial.
Mais do que um deus, ele é um patriarca, um elo que conecta os céus e a terra, os deuses da tempestade e os deuses da colheita, os guerreiros e os agricultores. Sua maldição, proferida em um momento de orgulho ferido, definiu a natureza mortal da realeza japonesa, um lembrete poético de que até os deuses são movidos por emoções humanas como a mágoa e a ira.
Hoje, nos mais de 10 mil santuários que levam seu nome, Ōyamatsumi continua a ser venerado. Seja como protetor dos marinheiros no Mar Interior de Seto, como patrono dos produtores de saquê ou simplesmente como o espírito que habita as montanhas sagradas, sua presença perdura, um testemunho da rica tapeçaria de crenças que formam a alma do Japão.
Perguntas para Reflexão
Como a história de Ōyamatsumi e suas filhas reflete a relação dos antigos japoneses com a natureza e a mortalidade?
De que forma a multiplicidade de funções de Ōyamatsumi (deus das montanhas, do mar, da guerra, do saquê) demonstra a flexibilidade e a adaptabilidade do Xintoísmo ao longo da história?
O que a vasta rede de santuários dedicados a ele nos diz sobre a importância do culto às montanhas na formação da identidade cultural e religiosa do Japão?

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