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Ame-no-Uzume: A Deusa da Alegria que Devolveu o Sol ao Mundo




Ame-no-Uzume (天宇受売命) , também conhecida como Ame-no-Uzume-no-Mikoto, é uma das divindades mais carismáticas e importantes do xintoísmo, a religião tradicional do Japão. Conhecida como a deusa do amanhecer, da felicidade, da fertilidade, da dança e das artes cênicas, Uzume ocupa um lugar especial no coração da cultura japonesa não por sua força ou poder bélico, mas por sua inteligência, astúcia e senso de humor .

Sua história mais famosa – o momento em que, com uma dança ousada e cômica, persuadiu a deusa do sol Amaterasu a sair de uma caverna e devolver a luz ao mundo – é uma das narrativas fundamentais da mitologia japonesa. Este ato não apenas salvou o cosmos da escuridão eterna, mas também estabeleceu Uzume como a inventora da dança ritual e padroeira de todas as artes performáticas no Japão .

Neste artigo, você vai explorar as origens desta deusa fascinante, os mitos protagonizados por ela, seu papel como matriarca de clãs importantes, seu legado na cultura japonesa contemporânea e as surpreendentes conexões que alguns estudiosos traçam entre ela e deusas do amanhecer de tradições tão distantes quanto a Índia védica e a Europa antiga.


Origem e Etimologia: O Significado do Nome

O nome completo da deusa é Ame-no-Uzume-no-Mikoto. Cada parte carrega um significado profundo:

TermoSignificado
Ame-no (天の)"Celestial" ou "do céu". Indica sua origem divina no reino celestial de Takamagahara.
Uzume (宇受売/鈿女)A parte mais debatida do nome. Pode significar "mulher forte" (ozume), ou "mulher com coque no cabelo" (uzu), referindo-se a um penteado típico de sacerdotisas xintoístas em transe mediúnico .
Mikoto (命)Um título honorífico para divindades ou pessoas de grande importância.

Assim, seu nome completo pode ser interpretado como "A Grande Divindade, Uzume a Celestial" ou "A Augusta Celeste, a Mulher Forte/Encantadora" .

Múltiplos Nomes e Apelidos

Como muitas divindades japonesas, Ame-no-Uzume é conhecida por vários nomes, dependendo do contexto ou da fonte:

  • 天宇受売命 (Ame-no-Uzume-no-Mikoto): Forma utilizada no Kojiki (Registro das Coisas Antigas, 712 d.C.) .

  • 天钿女命 (Ame-no-Uzume-no-Mikoto): Forma utilizada no Nihon Shoki (Crônicas do Japão, 720 d.C.) .

  • 大宮能売命 (Ōmiya-no-me-no-Mikoto): Outra variante encontrada em textos antigos .

  • Okame (お亀) ou Otafuku (お多福): Seus nomes mais populares na cultura cotidiana. Okame refere-se a uma máscara ou personagem de teatro cômico (kyogen) que representa uma mulher de rosto redondo, bochechas cheias e expressão alegre, inspirada na imagem de Uzume .


Os Mitos de Ame-no-Uzume: Astúcia, Humor e Coragem

Ame-no-Uzume protagoniza dois dos episódios mais importantes da mitologia japonesa: o resgate do sol da caverna celestial e o encontro com o poderoso kami da terra, Sarutahiko.

1. O Grande Mito: A Dança que Salvou o Mundo

A história mais célebre envolvendo Ame-no-Uzume começa com uma crise cósmica. Susanoo, o deus das tempestades e irmão mais novo da deusa do sol Amaterasu, envolveu-se em uma série de atos violentos e profanos no reino celestial. Segundo as lendas, ele destruiu os diques dos arrozais, profanou os salões sagrados com excrementos e, num ato final de terror, arremessou um cavalo esfolado no tear onde a tecelã das vestes dos deuses trabalhava, causando sua morte por susto .

Aterrorizada e furiosa com as provocações do irmão, Amaterasu retirou-se para uma caverna chamada Ame-no-Iwayado (A Caverna da Rocha Celestial) e lacrou a entrada com uma enorme pedra. Sem a luz do sol, o mundo mergulhou na mais completa escuridão. Os oitocentos milhões de kami (deuses) reunidos no leito seco do rio celestial viram-se em apuros: sem a luz do sol, a distinção entre dia e noite desapareceu, e os espíritos malignos começaram a proliferar .

O Conselho dos Deuses e o Plano de Uzume

Desesperados, os deuses se reuniram às margens do Rio Celestial (o Rio Amanogawa, a Via Láctea) para encontrar uma solução. O deus Omoikane (a Sabedoria Personificada) arquitetou um plano engenhoso. Enquanto outros deuses se encarregavam de preparar objetos sagrados – o espelho Yata no Kagami e as joias Yasakani no Magatama (que se tornariam parte das Três Relíquias Sagradas da Família Imperial) –, uma tarefa especial foi dada a Ame-no-Uzume .

Uzume, descrita como uma jovem kami cheia de energia e criatividade, preparou-se para o papel mais importante de sua existência. Ela amarrou musgo do Monte Kagu nos braços, enrolou folhas de videira nos cabelos e segurou na mão uma lança adornada com sinos .

Em frente à caverna, ela virou um grande balde de madeira e subiu sobre ele como se fosse um palco improvisado. Então, começou a dançar. Mas não era uma dança cerimoniosa e solene. Uzume dançou de forma frenética, cômica e cada vez mais desinibida. À medida que a dança atingia o clímax, ela soltou as amarras de suas vestes, expondo o peito e descendo a roupa até a altura dos genitais, apresentando-se semi-nua diante da assembleia divina .

A reação dos deuses foi imediata e estrondosa: eles caíram na gargalhada. O som das risadas, dos sinos e dos pés batendo no balde fez um tremendo alvoroço.

A Curiosidade de Amaterasu

Lá dentro da caverna, Amaterasu ouviu a comoção e ficou intrigada. Como poderia haver tanta alegria e barulho se o mundo estava imerso na mais completa escuridão? Curiosa, ela se aproximou da entrada da caverna e entreabriu a pedra, perguntando o que acontecia.

Uzume, astutamente, respondeu que havia um motivo para tanta festa: uma deusa ainda mais radiante e ilustre do que ela havia aparecido entre os céus, e todos estavam celebrando sua chegada .

Nesse momento, o deus Ame-no-Koyane e Futodama apresentaram o espelho na frente da caverna, refletindo a própria luz de Amaterasu. Ao espiar para fora, a deusa do sol viu seu próprio reflexo ofuscante e, acreditando ser a nova divindade rival, ficou ainda mais curiosa. Quando ela deu mais um passo à frente para ver melhor, o deus Ame-no-Tajikarao (o Poderoso Deus das Mãos), que estava escondido ao lado da entrada, agarrou-a pelo braço e puxou-a para fora, enquanto Futodama estendia uma corda sagrada de palha (shimenawa) atrás dela para impedir seu retorno .

Instantaneamente, a luz retornou ao mundo. O plano de Uzume, com sua dança ousada e seu humor, havia funcionado perfeitamente. Por esse feito, ela é considerada a deusa que "trouxe de volta o amanhecer", ou seja, a deusa do amanhecer .

2. O Encontro com Sarutahiko: Coragem e União

O segundo grande mito envolvendo Uzume ocorre quando o neto de Amaterasu, Ninigi-no-Mikoto, está prestes a descer do céu para governar a Terra (o evento conhecido como Tenson Kōrin - Descida do Neto Celestial).

No caminho, porém, a comitiva celestial encontra um obstáculo: um gigante chamado Sarutahiko-no-Ōkami bloqueia a passagem na encruzilhada celestial. Sarutahiko é descrito como uma figura imponente e assustadora: seu nariz media sete palmos de comprimento, suas costas mediam mais de sete shaku, seus olhos brilhavam como espelhos e sua boca e traseiro emitiam luz .

Enquanto os outros deuses hesitavam diante da figura aterrorizante, Ame-no-Uzume novamente tomou a iniciativa. Ela se adiantou, e com a mesma ousadia que usara na caverna, confrontou Sarutahiko. Expondo o peito de forma desafiadora e rindo alto, ela perguntou quem ele era e por que bloqueava o caminho .

Desarmado pela coragem e pela atitude da deusa, Sarutahiko revelou sua identidade: ele era um kami da terra que, sabendo da descida do neto celestial, viera oferecer sua lealdade e guiar a comitiva até o local designado .

A partir deste encontro, Sarutahiko conduziu Ninigi até as terras de Hyūga (atual província de Miyazaki) em Kyushu. Quanto a Uzume e Sarutahiko, as versões variam: alguns textos sugerem que Uzume acompanhou Sarutahiko até sua terra natal, Ise; outros afirmam que os dois se casaram . De qualquer forma, deste vínculo nasceu o clã Sarume (猿女君), uma importante família hereditária de sacerdotisas e dançarinas rituais nos primórdios da corte imperial japonesa. Uzume é, portanto, a deusa ancestral dos Sarume e também do clã Hieda (稗田氏), ao qual pertencia o lendário compilador do Kojiki, Hieda no Are .


Ame-no-Uzume e a Cultura Japonesa

O legado de Ame-no-Uzume transcende os textos mitológicos e está profundamente enraizado na cultura e nas artes japonesas.

Deusa das Artes Cênicas: A Origem do Kagura

A dança de Uzume diante da caverna é considerada a origem de todas as artes performáticas no Japão. Especificamente, ela é a padroeira do Kagura (神楽), que significa literalmente "entretenimento dos deuses". O Kagura é uma forma de dança ritual e teatro musical realizada em santuários xintoístas, tanto como oferenda quanto como forma de comunicação com as divindades .

Embora o Kagura moderno seja geralmente mais formal e estruturado do que a dança improvisada de Uzume, a essência permanece: o dançarino, muitas vezes em transe, torna-se um veículo para o divino, repetindo o ato primordial que trouxe a luz de volta ao mundo .

A Imagem Popular: Okame e a Alegria Cotidiana

No teatro cômico Kyogen e em festivais populares, Uzume é representada pelas máscaras de Okame (também chamada Otafuku). Estas máscaras retratam uma mulher de rosto redondo e alegre, bochechas cheias, olhos pequenos e um sorriso acolhedor, contrastando com as máscaras sérias e muitas vezes assustadoras do teatro Nô .

Okame é um símbolo de boa sorte, felicidade conjugal e fertilidade. Sua imagem pode ser encontrada em diversos amuletos e objetos do cotidiano, sempre evocando a alegria contagiante que a deusa original proporcionou aos deuses e ao mundo. Frequentemente, ela aparece em dupla com Hyottoko, um personagem masculino de boca torta, formando um par cômico popular .

Conexão com a Fertilidade e Festivais

Por sua dança ousada e por sua associação com o riso e a alegria, Ame-no-Uzume também é cultuada como kami da fertilidade e da fartura . Em algumas regiões, sua imagem ou suas representações (como Okame) são associadas a festivais da primavera, como o Setsubun, onde se jogam feijões para afastar os maus espíritos e convidar a boa sorte – uma cena em que estátuas de Uzume/Otafuku são frequentemente retratadas .


O Legado de Ame-no-Uzume e as Três Relíquias Sagradas

O mito de Ame-no-Uzume também está intrinsecamente ligado à origem das Três Relíquias Sagradas do Japão (Sanshu no Jingi), os símbolos da autoridade imperial:

  1. O Espelho (Yata no Kagami): O espelho usado pelos deuses para refletir a luz de Amaterasu e atraí-la para fora da caverna.

  2. A Joia (Yasakani no Magatama): As joias penduradas na árvore sagrada durante os rituais realizados na entrada da caverna.

  3. A Espada (Kusanagi no Tsurugi): Embora não diretamente ligada a Uzume, a espada foi posteriormente obtida por Susanoo e oferecida a Amaterasu como penitência.

Até hoje, réplicas destes três objetos são guardadas nos locais mais sagrados do Japão: o Espada no Santuário Atsuta (Nagoya), a Joia no Palácio Imperial (Tóquio) e o Espelho no Grande Santuário de Ise, dedicado à própria Amaterasu .


Conexões Surpreendentes: Ame-no-Uzume e as Deusas do Amanhecer do Mundo

Um aspecto fascinante do estudo de Ame-no-Uzume é a teoria, defendida por alguns estudiosos, de que sua origem pode estar ligada não apenas a tradições asiáticas, mas também a mitologias indo-europeias.

A Deusa Védica Ushás

Pesquisadores apontam semelhanças impressionantes entre Ame-no-Uzume e Ushás, a deusa do amanhecer na mitologia védica da Índia antiga .

CaracterísticaAme-no-Uzume (Japão)Ushás (Índia Védica)
Papel PrincipalDeusa do amanhecer, traz a luz de volta ao mundo.Deusa do amanhecer, abre os caminhos para o sol.
Mito da CavernaCom sua dança, atrai Amaterasu (sol) para fora da caverna.É encarcerada em uma caverna por demônios, impedindo o sol de nascer. O deus Indra a liberta.
Gestos de AmizadeExpõe o peito durante a dança, interpretado como um gesto de força e boa vontade."Desnuda o peito" como sinal de amizade e boa vontade.
Função ProtetoraEncanta Sarutahiko, um espírito terreno potencialmente hostil, para que permita a passagem do neto celestial.Dispara contra espíritos malignos para limpar o caminho do sol (Surya) .

Conexão com Deusas Europeias

Se esta influência for verdadeira, Ame-no-Uzume faria parte de uma vasta família de deusas do amanhecer de origem indo-europeia, que inclui figuras como a grega Eos, a romana Aurora, a germânica Eostre (cujo nome deu origem à Páscoa em inglês, Easter) e a eslava Zorya . A teoria sugere que estas histórias podem ter viajado da Índia para o Japão através da Rota da Seda e da influência do budismo, que trouxe consigo não apenas uma religião, mas também um rico caldeirão de mitos e ícones.


Santuários e Locais de Culto

Ame-no-Uzume é venerada em diversos santuários xintoístas por todo o Japão, especialmente como padroeira das artes, da dança e da alegria, e como deusa ancestral dos clãs Sarume e Hieda.

SantuárioLocalizaçãoDestaque
Santuário Tsubaki (椿大神社)Suzuka, MieUm dos principais santuários dedicados a Sarutahiko, onde Uzume também é venerada como sua consorte .
Santuário Uzume (鈿女神社)Matsukawa, NaganoSantuário dedicado exclusivamente a Ame-no-Uzume .
Santuário Ōasahiko (大麻比古神社)Naruto, TokushimaImportante santuário com conexões aos clãs ancestrais.
Santuário Tsubaki (椿神社)Matsuyama, EhimeUm dos maiores festivais de Shikoku, associado à fertilidade e à alegria.
Santuário Hiyoshi (日吉大社)Otsu, ShigaPossui sub-santuários dedicados a Uzume.
Santuário Fushimi Inari (伏見稲荷大社)KyotoEmbora dedicado a Inari, possui inúmeras estátuas de raposas e, em suas redondezas, é possível encontrar representações de Okame.
Santuário Inamura (稲叢山)Prefeitura de KochiNo topo do Monte Inamura, há um santuário onde a deusa é homenageada .

Conclusão

Ame-no-Uzume é uma das divindades mais amadas e humanas do panteão xintoísta. Em um mundo de deuses muitas vezes distantes e poderosos, ela se destaca por suas qualidades tão reconhecidamente humanas: a coragem de enfrentar situações difíceis, a astúcia para encontrar soluções criativas e, acima de tudo, o humor e a alegria como forças transformadoras.

Sua dança diante da caverna de Amaterasu não é apenas um mito de origem; é uma poderosa metáfora sobre como a arte, o riso e a celebração podem trazer luz mesmo nos momentos mais sombrios. Ao expor seu corpo e fazer os deuses rirem, Uzume nos ensina que a vulnerabilidade e a alegria compartilhada têm um poder imenso – o poder de curar, de unir e de restaurar a ordem no cosmos.

Seja como a solene kami dos textos antigos, a face sorridente de Okame nos festivais populares ou a inspiração por trás das danças sagradas do Kagura, Ame-no-Uzume continua a nos lembrar que, no coração da espiritualidade japonesa, há sempre espaço para o riso, para a criatividade e para a celebração da vida. E, como ela demonstrou tão bem, às vezes é preciso um pouco de loucura e muita alegria para trazer o sol de volta.


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